Tambaquis provenientes de sêmen congelado já estão sendo produzidos na Amazônia

Banco de sêmen de tambaqui silvestre no Estado de Rondônia é uma promessa para acabar com a consangüinidade dos reprodutores das pisciculturas brasileiras.

O Projeto Banco de Sêmen de Tambaqui Silvestre, foi criado em 2001 com o objetivo de contribuir para o melhoramento genético deste grande peixe nativo brasileiro nas pisciculturas espalhadas por todo país. Segundo o engenheiro de pesca Jenner Bezerra de Menezes, pesquisador do projeto, há um alto grau de consangüinidade nos tambaquis (Colossoma macropomum) atualmente cultivados, sendo grande a dificuldade encontrada pelos criadores para solucionar este problema através da renovação dos plantéis de reprodutores, já que muitas das vezes estão distantes dos bancos naturais de animais silvestres.

O Banco de Sêmen apoiado pela Fundação Rio Madeira, uma instituição de apoio à Universidade Federal de Rondônia, começou a tomar forma através do programa “Plataformas Tecnológicas para Amazônia Legal”, financiado com recursos da FINEP e CNPq. Encontra-se instalado a 30 km da capital do Estado, Porto Velho, às margens do Rio Madeira, na Central Produtora de Alevinos – CPA, de propriedade da Secretaria Estadual de Agricultura. Está localizada a 2 km da Cachoeira de Teotônio, importante ponto pesqueiro e turístico do Estado. Nesta localidade são capturados os tambaquis e outras espécies de peixes locais, como a pirapitinga (Piaractus brachipomum), o pacu prata (Mylossoma duriventre), a jatuarana (Brycon sp) e a curimatã (Prochilodus nigricans), que compõem o plantel reprodutor da instituição, que desde o início dos anos 90 vem produzindo alevinos oriundos de peixes silvestres.

Coleta e congelamento

Segundo Jenner Menezes, os primeiros trabalhos de coleta de sêmen de tambaquis silvestres capturados no Rio Madeira e em alguns lagos marginais da região, iniciaram-se em janeiro deste ano. Para a coleta do sêmen, os reprodutores são induzidos hormonalmente com uma solução de hipófise (1mg/kg peixe) e, após 8 horas da aplicação, o sêmen é retirado através de massagem abdominal e coletado em tubos de ensaio graduados, previamente limpos e esterilizados, evitando-se a contaminação com fezes, urina ou sangue (Foto 1). São coletados, em média, 6 mililitros de sêmen por espécime, já tendo ocorrido na CPA coletas de até 12 mililitros por animal.

Foto1 – Coleta de sêmen de tambaqui
Foto1 – Coleta de sêmen de tambaqui
Foto 2 – Sêmen sendo congelado em container tipo seco
Foto 2 – Sêmen sendo congelado em container tipo seco

O material seminal coletado é analisado pelos especialistas quanto à cor, viscosidade, motilidade e a concentração. Para a verificação da motilidade os espermatozóides são ativados pelo uso de uma solução ativadora (bicarbonato de sódio 1%). Para determinar a concentração espermática, os técnicos diluem o sêmen na solução ativadora na proporção 1:1000 (sêmen:solução) para que os espermatozóides sejam contados em Câmara de Neubauer. Os resultados preliminares demonstram que o sêmen do tambaqui apresenta uma coloração leitosa e textura acentuadamente viscosa e uma concentração espermática média em torno de 35 bilhões de espermatozóides por mililitro.

Para o congelamento, o material seminal é diluído em soluções crioprotetoras que têm por base glicose, gema de ovo e uma substância crioprotetora. Os protetores utilizados nos testes da CPA foram o dimetil acetamida, dimetil sulfóxido, metanol, propileno glicol e etileno glicol. Após o sêmen ser diluído, na proporção 1:3 (sêmen:diluente), é envasado em palhetas de 0,5ml e congelado em vapores de nitrogênio líquido em um container tipo cryopack 65, um botijão do “tipo seco” (Foto2). A seguir, o material seminal congelado é transferido para um container “tipo líquido”, onde as palhetas congeladas ficam imersas no nitrogênio líquido a -196 ºC, sendo estas, marcadas e catalogadas para posterior utilização.

Tambaquis provenientes de sêmen congelado

Em fevereiro passado, foram realizados os primeiros testes de fecundação com o intuito, inclusive, de testar os efeitos dos diferentes crioprotetores utilizados. Taxas de 76% foram obtidas com o uso do criprotetor propileno glicol e 88% com o crioprotetor etileno glicol. Segundo Jenner Menezes, os valores encontrados são muito próximos ou até iguais aos controles realizados com sêmen fresco. As larvas encontram-se hoje na CPA e serão comercializadas dentro do Estado, onde se fornece freqüentemente os F1 originados de peixes silvestres.

A incubação ocorreu normalmente, sem nenhuma diferença do processo tradicional de incubação ou alevinagem desta espécie. A alevinagem também ocorreu com normalidade e as taxas de sobrevivência alcançam até 70%, com as pl’s tendo sido soltas dez dias após a eclosão, após terem sido alimentadas nas incubadoras com plâncton vivo. Ao que tudo indica são os primeiros tambaquis “de proveta” já produzidos em todo o mundo, já que até o momento não foi possível identificar trabalhos semelhantes realizados anteriormente como este peixe, afirma Jenner Menezes.

Num curto e médio prazo, segundo o engenheiro de pesca, os planos são de continuar o trabalho de coleta e preservação de sêmen ao mesmo tempo em que continuará a identificação de crioprotetores mais eficientes, que permitam maior taxa de sobrevivência dos espermatozóides e possibilitem a diminuição da “dose fecundante”, ou seja, menos sêmen por palheta para fecundar uma mesma quantidade de óvulos. A médio e longo prazo a idéia é selecionar os melhores reprodutores através de testes de larvicultura, alevinagem, recria e engorda com uso de uma mesma fêmea. Após a avaliação desses resultados será possível adquirir o sêmen de um doador determinado, cujas características são desejáveis. Para isso, desde já, os reprodutores estão sendo marcados com microchips eletrônicos subcutâneos, que permanecem por prazo indeterminado nos animais e com código único em qualquer parte do mundo, reconhecido por um leitor tipo código de barras.

A venda de sêmen ainda não esta sendo realizada, tampouco os preços foram determinados. A embalagem de transporte, no entanto, será baseada nos antigos moldes dos bancos de sêmen de bovinos e equinos, onde o criador envia o contêiner especial (tipo líquido ou seco) contendo nitrogênio líquido, como se procede com sêmen bovino ou eqüino, recebendo de volta com as doses solicitadas.

Além do engenheiro de pesca Jenner T, Bezerra de Menezes ([email protected]), a equipe do Banco de Sêmen do Tambaqui Silvestre conta com a assessoria do ictiogeneticista Alexandre Ninhaus Silveira ([email protected]) para os assuntos de ictiogenética e criogenia e do engenheiro de pesca Jaire Bezerra de Menezes Júnior ([email protected]).