Tanques-Rede

Substituem tanques de fortalecimento e berçário no cultivo de Macrobrachium rosenbergii


Os tanques rede, também chamados de gaiolas ou jaulas, têm sido utilizados em cultivo de algumas espécies de peixes marinhos e de água doce, moluscos e crustáceos marinhos, com resultados satisfatórios nas diferentes fases de crescimento desses organismos. Entretanto, no cultivo do camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii, na fase de engorda, os tanques-rede não oferecem bons resultados.

Isso se deve ao fato do M. rosenbergii ser uma espécie territorialista e ainda ter um crescimento heterogêneo entre os machos, tornando difícil a sincronia entre os cicIos de mudas.

As perdas econômicas decorrentes disso são grandes pois, durante o curto espaço de tempo em que ficam completamente moles (estágio de muda E e início do A), caso não estejam bem protegidos nas “áreas de muda” que consiste nos taludes dos viveiros, são rapidamente canibalizados.

Nos tanques-rede, mesmo utilizando abrigos artificiais para simular as “áreas de muda”, ainda não foi possível obter bons resultados de engorda com o Macrobrachium rosenbergii.

PÓS-LARVAS

Na fase de pós-larvas, entretanto, as mudas acontecem mais seguidamente e com mais sincronia. Esse fato, associado ao crescimento relativamente pequeno nessa fase, permite aos criadores utilizarem, nos dois primeiros meses após a metamorfose, altas densidades populacionais nos tanques de fortalecimento e berçário.

No Peru, criadores de M. rosenbergii utilizam com sucesso os tanques-rede, instalando-os dentro dos próprios viveiros de engorda, para estocar as pós-larvas como se fossem tanques de fortalecimento.

SISTEMA MULTIFÁSICO

Em diversos países, assim como no Brasil, o sistema de engorda multifásico é o que tem dado os melhores resultados na engorda semi-intensiva do M. rosenbergii. Este sistema consiste em sistemas específicos de cultivo para cada uma das diversas etapas de vida do camarão, levando em consideração as características biológicas do animal (crescimento, comportamento, etc.) e o controle populacional para a obtenção de maiores produtividades.

As diferentes fases são: fortalecimento de pós-larvas, berçário e engorda, podendo existir ainda uma fase intermediária entre o berçário e a engorda.

– Fase de fortalecimento das pós-larvas – normalmente são utilizados tanques de concreto (tanques de fortalecimento) para que as pós-larvas, recém metamorfoseadas, se adaptem às condições mais “rústicas” de cultivo. A água utilizada é a mesma utilizada na engorda, sendo aerada continuamente, e renovada para que se mantenham baixos os níveis de amônia. A densidade varia de 3 a 7 pós-larvas por litro por um período de 15 a 20 dias de cultivo. A alimentação é a base de ração com 30-35% de proteína bruta e utiliza-se substrato artificiais para ampliar a área disponível para os animais. O peso médio inicial é de 0,013 g e o peso final de 0,045 g.

– Fase de berçário – É feita em viveiros pequenos (100 a 800 m2), escavados
na terra. Utiliza-se uma densidade de 100 a 200 camarões por m2 com água renovada e monitorada para que mantenham boas as condições de cultivo. Alguns produtores nesta fase já utilizam aeradores.

– Fase de engorda – é a última fase do crescimento no sistema multifásico e é feita em viveiros escavados na terra de 0.1 aI ha (1.000 a 10.000 m2) e densidades que variam de 4 a 10 camarões por m2.

CUSTOS, DIFICULDADES E SOLUÇÕES

Geralmente, os criadores de peixes que desejam passar a criar também camarões de água doce, esbarram nas dificuldades de sua estrutura funcional por não disporem de viveiros berçários e muito menos, de tanques de fortalecimento de pós-larvas. As dificuldades para construir essas benfeitorias associadas aos custos desestimuladores, desanimam o piscicultor a experimentar a engorda do camarão.

Já no Peru, em decorrência da falta de infra-estrutura, os criadores muitas vezes se valem da criatividade para solucionar os problemas e acabam criando novas e eficientes técnicas de manejo. Foi assim que adaptaram tanques-rede dentro dos viveiros de engorda, simulando com sucesso as fases de fortalecimento e até mesmo a de berçário.

TANQUES-REDE

Já utilizados experimentalmente no Brasil (Instituto de Pesca – Estação Experimental de Pindamonhangaba, SP) os tanques-rede utilizados no Peru, se caracterizam por ser de malha plástica do tipo mosquiteiro, costurada com linha de nylon, sem estrutura rígida de sustentação. As dimensões podem variar de tamanho, sendo as mais usadas as de 10 m de comprimento, 2,5 m de largura e 0,9 m de altura,
contando com uma borda de apenas 15 cm, que ficará para fora da água, evitando a ação de ventos fortes. Devem ficar suspensos, amarrados em estacas fixas, não podendo ter contato com o fundo.

Sua localização deve ser estratégica, sendo escolhido o viveiro que na ocasião possua as melhores condições de cultivo (transparência com disco de Secchi de 32 em, coloração esverdeada, pH 8,3 e Oxigênio Dissolvido 6,0 mg!l nas horas críticas) e deve ser instalado próximo a entrada de água.

Tubos de PVC 75 mm com água do abastecimento devem ser trazidos e reduzidos para tubos de PVC 35 mm, no tamanho de todo o comprimento do tanque-rede. Deve-se fechar o tubo na extremidade e perfurá-los em ambos os lados, para garantir um abastecimento homogêneo.

Os tanques-rede devem ser instalados poucas horas antes da chegada das pós-larvas. Isso evita problemas com predadores, principalmente com larvas de odonata (lavadeira). No mesmo viveiro onde são colocados os tanques-rede, é feita também a engorda do camarão, aproveitando-se desta maneira a mesma área para as duas fundado ao fato que as gaiolas são suspensas.

As pós-larvas ao chegarem para povoar as gaiolas devem ser aclimatadas e soltas numa densidade de 500 PLs por m2 de fundo, equivalente a pouco menos de 1 PFL/litro, não sendo utilizado nenhum substrato nem abrigo. As pós-larvas chegam com peso médio de 0,013 g, atingindo em 30 dias um peso médio de 0,35 g. com sobrevivências que variam de 93% a 98%.

Das gaiolas, os camarões seguem para o viveiro berçário ou em alguns casos, permanecem por mais 10 dias quando então são colocados diretamente nos viveiros de engorda.

A alimentação das pós-larvas nos tanques-rede, é feita com ração comercial triturada a aproximadamente 1 mm, contendo 35% de proteína bruta, fornecida três vezes ao dia. As quantidades, entretanto, variam conforme a qualidade da água das fazendas. Geralmente, usa-se 15% da biomassa nos primeiros sete dias; daí até o 15ºdia, 12% da biomassa;do 15º ao 25º usa-se 10% e do 25º dia em diante, até serem despescados para o viveiro berçário, utiliza-se 5 % da biomassa.

DESPESCA

As despescas são rápidas e simples. Retirando-se as amarras de um dos extremos, vai se levantando o tanque-rede, concentrando as pós-larvas no outro extremo e retirando-as mediante amostragem volumétrica.

Essa técnica relativamente simples, em que é de fundamental importância o acompanhamento contínuo dos fatores físicos e químicos da água., tem ajudado a viabilizar mais ainda o cultivo do Macrobrachium rosenbergii no Peru, onde aqüicultores sem muitos recursos econômicos têm obtido produtividades médias de 2.100 kg/ha/ano, em até três safras anuais.

José Carlos Gastelu
Jaqueline M. de Oliveira
Biólogos