Tilápia chega aos supermercados pelas mãos da Sadia

Por: Jomar Carvalho Filho
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Que atire a primeira pedra quem já não parou um instante para pensar no que poderia se transformar a piscicultura brasileira, no momento em que uma grande empresa, do porte da Sadia ou Perdigão, entrasse de alguma forma no mercado brasileiro dos peixes cultivados. Esse momento chegou e já se encontram à venda no mercado das Regiões Nordeste e Sul, dois produtos da Sadia, em que a vedete é a tilápia cultivada nos viveiros do oeste do Paraná.


Algumas cidades do Nordeste, e outras da Região Sul, já oferecem nas prateleiras dos seus supermercados, dois pratos prontos da linha light da Sadia, elaborados a base de tilápia. Segundo a empresa, são produtos que visam atender às preferências dos consumidores que se preocupam com uma alimentação saudável, sem abrir mão do sabor.

O Filé de Peixe Gratinado Congelado com Purê de Batatas e Molho Branco e o Filé de Peixe em Molho de Queijo Congelado com Brócolis e Tomates fazem parte da linha Light, composta por produtos elaborados com carnes brancas, com menores teores de gordura e calorias. Ambos os produtos combinam o conceito de carne saudável, nutritiva, com pouca gordura e menos calorias associado aos peixes, à crescente tendência de consumo de produtos do segmento light. Segundo a Sadia, são dirigidos à um público que busca a boa forma do corpo através de uma alimentação mais saudável. O Filé de Peixe Gratinado tem 80 kcal por 100 gramas e o Filé de Peixe em Molho de Queijo tem 76 kcal por 100 gramas.

Os pratos à base de tilápia são embalados em cartuchos com peso líquido de 500 gramas e trazem, cada um, dois filés que somam 150 gramas de peixe. O consumidor deve retirar a bandeja de alumínio do cartucho, remover a tampa e colocar o produto, ainda congelado em forno preaquecido, convencional ou elétrico, por 45 a 50 minutos. O produto serve a duas pessoas e o preço médio ao consumidor, sugerido pela empresa, deve oscilar entre R$ 6,88 a R$ 8,55.

O Fim da Linha Sete Mares

Tradicionalmente conhecida por produtos à base de carnes suína, bovina, de frango e de peru, a Sadia passou a atuar, em 1997, também no segmento de pescados, quando lançou a linha Sete Mares, resultado da parceria com a empresa dinamarquesa Rahbekfisk A/S, uma das maiores produtoras européias de industrializados de peixe.

A linha Sete Mares, agora descontinuada, era composta por nuggets de peixe, hambúrguer de peixe, filé de peixe empanado e barrinhas de peixe, e suas embalagens, apesar de concebidas e projetadas no Brasil, foram igualmente produzidas na Dinamarca. Os produtos eram exportados totalmente prontos para a Sadia que estimava, na ocasião, obter um conhecimento de marca no segmento brasileiro de peixes congelados de pelo menos 10% até o final de 1998.

Na ocasião do lançamento da linha Sete Mares, o mercado brasileiro de produtos industrializados de peixe foi estimado, segundo pesquisas da própria Sadia, em 4.200 toneladas, estando as empresas que atuam nesse segmento pulverizadas regionalmente, oferecendo uma pequena variedade de produtos. Mundialmente, no entanto, tem-se registrado um crescimento da demanda por essa modalidade de proteína animal, em função do crescente consumo de carnes brancas e de baixos teores calóricos. A França destaca-se como o maior mercado mundial de peixe congelado, seguida da Espanha. Em toda a Europa o consumo per capita de pecados congelados é de 4kg/ano, enquanto que no Brasil o consumo situa-se em 300 gramas.

As recentes desvalorizações da moeda selaram de vez o futuro da linha Sete Mares de pescados importados, e podem ter aberto de vez as portas para a tilápia consagrar-se como um peixe nobre, capaz de atender paladares bastante exigentes.

Em busca da Qualidade

Apesar do produto final ser produzido na fábrica de pratos prontos da Sadia, em São Paulo, foi no oeste do Estado do Paraná que a empresa buscou a parceria adequada para abastecer-se de uma matéria prima com a qualidade capaz de levar a chancela do “S” da Sadia.

Depois de um namoro de quase um ano e de uma auditoria de qualidade, onde mais de 500 itens foram avaliados, finalmente foi selado o contrato de fornecimento com a Frigopeixe, empresa paranaense sediada em Toledo, no oeste do Estado.

Segundo o Gerente de Grupo de Produtos de Marketing da Sadia, Bartholomeu Stein, apesar da empresa se ocupar do abate das aves e dos suínos que comercializa, não se tem planos de fazer o mesmo com a tilápia, cujos filés são adquiridos já processados. Para que a Sadia pudesse dispor das melhores condições microbiológicas e sensoriais, era preciso estabelecer uma parceria com um frigorífico com SIF, que reunisse as melhores condições de abate e fosse capaz de ser abastecido por produtores com padrões tecnológicos que, de forma alguma, criassem seus peixes com dejetos. A intenção é dar rastreabilidade para o nosso produto, diz Stein, lembrando que os pratos prontos feitos com tilápias devem ter uma altíssima qualidade, já que serão oferecidos ao consumidor ao lado de produtos campeões de venda como a Lasanha Bolongnesa e a Feijoada Todo Sabor Sadia.

A expectativa da empresa é que a aqüicultura no Brasil possa, num futuro muito próximo, repetir o mesmo sucesso da avicultura, sendo o segundo produtor e o segundo exportador mundial. “Hoje no Japão se come perna de frango produzida no Brasil e a nossa aposta é que as condições que fizeram com que a avicultura no Brasil alcançasse esse nível de competitividade, vá se repetir na aqüicultura, apesar de, no caso do peixe, não cogitarmos fazer uma integração”, acrescenta Bartholomeu Stein.

Frigopeixe

Apenas uma parte da produção da Frigopeixe se destina a Sadia, que já recebe o par de filés pesado e congelado, prontos para serem transportados para São Paulo a -20oC. O restante do peixe é acondicionado em embalagens de 0,5 kg, destinadas aos diversos mercados que a empresa luta por conquistar.

Fundada em 1995, a Frigopeixe mantém um vasto cadastro de fornecedores de tilápia que recebem, segundo o gerente Moacyr José Giustti, freqüentes visitas gratuitas do técnico do frigorífico para um acompanhamento do processo produtivo. Deste modo, a Frigopeixe é capaz de elaborar, com uma antecedência de 40 dias, suas rotinas diárias de abate de peixes, vindos de 12 municípios próximos, concentrados num raio de 150 km.

Para o abate são selecionadas tilápias pesando entre 400 e 500 gramas, despescadas e levadas vivas para as instalações do abatedouro, localizado no distrito industrial da cidade de Toledo. Os produtores recebem em média R$ 1,20 por cada quilo de tilápia, assumindo o frigorífico, as despesas de despesca e transporte até a sua planta processadora, onde ainda são mantidas vivas em tanques ladrilhados com aeração e água corrente.

Ao serem encaminhadas para o abate, as tilápias são imersas em água e gelo. Em seguida, passam por um tambor giratório de lavagem com água clorada e só então transpõem o óculo que dá acesso a linha de processamento, que envolve o corte inicial para a retirada da cabeça, seguido dos cortes laterais que precedem a retirada da pele, feita com alicate, e os cortes para a retirada dos dois filés. Feito isto, são arrumados em bandejas e congelados em armários de placas (amônia) ou armários de congelamento utilizando o nitrogênio líquido.

Linha de Processamento da Frigopeixe
1- Tanques de recebimento dos peixes vivos
1- Tanques de recebimento dos peixes vivos

2- Abate na água com gelo e lavagem dos peixes
2- Abate na água com gelo e lavagem dos peixes
3- Linha de abate e filetagem
3- Linha de abate e filetagem

4- Bandejas para congelador
4- Bandejas para congelador

5- Congelador de placas (amônia)
5- Congelador de placas (amônia)

6- Embalagem final de 500 gramas de filés congelados
6- Embalagem final de 500 gramas de filés congelados
Paradoxo

Apesar de estar desfrutando das vantagens da nova parceria com a Sadia, a Frigopeixe, a exemplo dos demais frigoríficos-abatedouros do Paraná, vive um de seus piores momentos no que tange a colocação dos filés congelados no mercado.

A crise também atinge os produtores, que experimentam um momento bastante delicado pelo fato de estarem, ainda neste final de agosto, com os seus viveiros repletos de peixes, muitos já prontos desde abril. Se por um lado tiveram sorte pelo fato do inverno não ter sido muito severo, afastando mortalidades, por outro, estão vendo alarmados seus custos de produção subir dia após dia, já que os peixes consumiram ração por toda a temporada mais “fria” e seu apetite só vem aumentando na medida que sobe a temperatura.

Este ano, a redução drástica da procura por parte dos pesque-pagues foi acompanhada também pela queda do preço do peixe vivo, comercializado a R$ 1,30/kg, neste final de agosto. Esses fatos, são responsáveis pela incerteza e insegurança que vivem hoje os produtores, já que terão que decidir em breve, se valerá a pena ou não, povoar seus viveiros com alevinos para a próxima safra.

Na última temporada de engorda, os transportadores de peixes que atuam no oeste paranaense, chegaram a ditar a linhagem a ser utilizada ao se recusarem a transportar a tilápia tailandesa, alegando a sua fragilidade ao transporte prolongado em altas densidades. Abrir mão de um peixe com boas características zootécnicas por não ser tão resistente ao transporte, é o sinal mais claro que o produtor ainda não está preocupado, ou não sabe como fazer parcerias com as indústrias processadoras, apostando ainda no mercado de pesque pague.

Produtores confusos e frigoríficos em disputa pelo ainda pequeno mercado de filés, refletem o quadro neste início de semestre na região oeste do Paraná. Essa disputa, principalmente pelo mercado da capital paranaense, é discreta porém acirrada, trazendo consigo uma batalha velada de preços. A indústria do filé processado está cedendo às dificuldades do mercado e, conseqüentemente, está abrindo mão de um preço justo que possa remunerar adequadamente todos os envolvidos, do produtor a própria indústria. Baixar o preço do filé tem sido a fórmula mágica encontrada para vende-lo. Isso poderia fazer sentido se vivessem uma economia de escala. Mas como falar em economia de escala, numa região onde os produtores têm em média somente 0,3 hectares inundados?

Baixar o preço para compensar a falta de estratégias de venda de filés pode um tiro que sai pela culatra. Uma arma que só terá serventia para convencer o produtor, já assustado com o mercado, a comercializar seus peixes tendo que reduzir cada vez mais suas margens de lucro, se é que ainda as tem.

O paradoxo está aí. Boas notícias pela tilápia estar chegando às grandes redes de supermercados, trazida pelas mãos de uma empresa com a aceitação da Sadia, e apreensões ao se constatar que chegou o momento em que é preciso amadurecer e se organizar pra crescer.

Preços

Os produtos Sadia à base de tilápia, estão sendo oferecidos nos Supermercados Hiper Bom Preço Boa Viagem em Recife-PE a R$ 8,59 a embalagem, e no Supermercados Nordestão em Natal-RN a R$ 7,20.

A Frigopeixe (Toledo-PR – fone: (45) 252-7117) vende embalagens de 500 gramas de filés a R$ 7,30 o quilo.

A Big Peixes (Toledo-PR – fone: (45) 252-4890) vende embalagens de 500 gramas de filés a R$ 6,00.

A Pisces Frigorífico (Assis Chateaubriand-PR – fone: (44) 540-1125) vende embalagens de 500 gramas de filés a R$ 5,50.

Os preços citados acima se referem ao peixe retirado no local e estão sujeitos a cobrança de frete, que varia de acordo com a região.