Tilápia do Brasil: Um frigorífico com a marca do país

Por: Jomar Carvalho Filho
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A utilização de modernas técnicas de cultivo da tilápia, com destaque para as técnicas de reversão sexual, associadas à introdução no País de linhagens especialmente desenvolvidas para o ganho de carcaça, fizeram com que muitos piscicultores, ao longo da década de 90, se voltassem para o cultivo desse peixe. Desde então, assistimos ao aparecimento de inúmeras indústrias dedicadas ao processamento da tilápia, que se instalaram inicialmente no Estado do Paraná, para depois se espalhar por vários estados do País.

Infelizmente, o que se viu com o passar do tempo, foi o sucessivo fechamento desses estabelecimentos, muitas vezes motivados por simples problemas, inerentes a uma atividade emergente. O desconhecimento do mercado, a falta de fidelidade dos produtores para com essas processadoras recém construídas e a inexperiência da maior parte dos empreendedores, muito colaboraram para fechar boa parte das processadoras brasileiras, um dos mais importantes elos da cadeia produtiva da tilápia. Entretanto, as histórias de fracasso dos frigoríficos dedicados aos pescados cultivados no Brasil têm tudo para fazer parte do passado. Novos frigoríficos têm sido construídos por novos empreendedores, dispostos a não cometer, nem conviver, com as falhas fatais que levaram ao fechamento de tantos frigoríficos na última década.

Dentre esses frigoríficos destaca-se o da empresa Tilápia do Brasil, com sua estrutura de beneficiamento solidamente instalada na pequena e simpática Buritama, cidade localizada no noroeste paulista, distante 542 km da capital, às margens do Rio Tietê, na represa de Nova Avanhadava.

A Tilápia do Brasil

O frigorífico da empresa Tilápia do Brasil começou a operar em agosto de 2004, quando recebeu a aprovação do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Em outubro do mesmo ano, essa empresa, concebida inicialmente com um perfil exportador, já obteve a sua certificação de APPCC – Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle, quando pode então enviar as suas primeiras remessas de filés frescos de tilápia para os Estados Unidos.

O salão principal do frigorífico foi concebido para a operação de três linhas de filetagem. Atualmente, 85 trabalhadores, em apenas um turno de trabalho, movimentam duas dessas linhas que possuem, cada uma delas, a capacidade de filetar diariamente cinco toneladas de tilápia. Hoje, um ano após o início das suas operações, oito toneladas de peixe estão sendo abatidas diariamente nas dependências do frigorífico e, segundo Rubens Masset, diretor administrativo e financeiro da Tilápia do Brasil, a meta é chegar ao final de 2005 operando com a capacidade plena dessas duas linhas de abate. Otimista, Masset acredita que até abril do próximo ano, a terceira linha de filetagem já estará funcionando.

A Tilápia do Brasil comercializa basicamente dois produtos: o filé de tilápia fresco, produto voltado para o mercado externo, hoje representado apenas pelo mercado dos EUA e do Canadá (via EUA), e o filé de tilápia congelado, um produto vendido no mercado interno, que também já começa a aceitar o filé fresco processado.

São exportadas semanalmente 12 toneladas de filés frescos para os EUA, numa operação que se reveste de uma logística bem azeitada, e que se repete quatro vezes a cada semana. O trabalho de embarque começa logo pela manhã, bem cedo, quando o caminhão da Tilápia do Brasil entrega os filés frescos no aeroporto de São José do Rio Preto. De lá, a carga parte de avião com destino a Congonhas, na capital paulista onde, sob a supervisão de uma empresa especializada, segue por transporte rodoviário refrigerado até o aeroporto Internacional de Guarulhos, para embarcar na mesma noite com destino a Miami, chegando na manhã do dia seguinte.

Os filés

São três as classificações dos filés frescos que a Tilápia do Brasil produz para atender seus clientes no exterior. Os de menor peso são aquele que pesam entre 90 a 140 gramas (3 a 5 onças), e representam 30% dos filés produzidos pela empresa. Os filés, pesando entre 140 a 200 gramas (5 e 7 onças) representam 60% do total embarcado e são provenientes de tilápias, cujo peso médio se situa ao redor de 1.100 gramas. Os filés maiores, com peso entre 200 a 250 gramas (7 e 9 onças), representam apenas 10% do total embarcado e são provenientes de peixes com cerca de 1,5 kg.

A Tilápia do Brasil comercializa seus filés para os EUA a US$ 6,67/kg (US$ 3.00/libra). Esse é o valor que a empresa recebe pelo produto posto em Miami (CIF), arcando com o custo do frete até lá, que é de US$ 1,67 por cada quilo.

Esses preços de venda são considerados bastante atrativos, não fosse a situação atual de desvalorização da moeda norte-americana, que tem feito com que o valor final da venda no mercado externo esteja sendo menor do que o que a empresa comercializa na capital paulista, para uma rede de supermercados, que hoje já consome quatro toneladas mensais de filé fresco, pagando R$ 12,00 pelo quilo.

Essa situação, obviamente, não agrada os acionistas da Tilápia do Brasil. Mas, segundo Rubens Masset, apesar do mercado interno estar hoje mais interessante do que as vendas para o exterior, não se pensa, por hora, em mudar o perfil exportador da empresa, que tem o compromisso de enviar para fora do Brasil pelo menos 80% da sua produção, para que possa desfrutar das vantagens dadas às empresas exportadoras. Isso permite, por exemplo, que a empresa economize 9,25% na aquisição da ração, decorrentes da isenção do pagamento do PIS e do Confins. A ração representa 70% dos custos de produção do peixe e essa economia é bastante significativa para uma empresa, como a Tilápia do Brasil, que consome 300 toneladas mensais.

A engorda

Para ter o peixe ao longo de todo o ano e assim cumprir com os compromissos que vem assumindo no exterior, a Tilápia do Brasil não pode contar apenas com as tilápias adquiridas de terceiros. Para garantir que seu frigorífico estará diariamente abastecido com o volume de pescado que necessita, foi montada uma engorda bem estruturada, da qual fazem parte três fazendas pertencentes ao grupo, que literalmente flutuam nas águas da Represa de Nova Avanhadava, também em Buritama.

A maior delas, a Piscicultura Garantido, localizada no Córrego Santa Bárbara, um dos braços da Nova Avanhandava, contribui com a produção de seus 400 tanques-rede (foto 1). Próximo a ela, também no mesmo braço da represa, encontramos a Piscicultura Pedrana (foto 2), com seus 200 tanques-rede. A terceira piscicultura, a Nova Era (foto 3), também possui 200 tanques-rede em produção, e fica localizada bem próximo, no Córrego Arribada, um outro braço da Nova Avanhadava.

Foto 1 – Piscicultura Garantido com seus 400 tanques-rede
Foto 1 – Piscicultura Garantido com seus 400 tanques-rede
Foto 2 – Piscicultura Pedrana, que produz em 200 tanques-rede
Foto 2 – Piscicultura Pedrana, que produz em 200 tanques-rede
Foto 3 – Piscicultura Nova Era, que produz em 200 tanques-rede
Foto 3 – Piscicultura Nova Era, que produz em 200 tanques-rede

Ao todo são 800 tanques-rede que alojam tilápias em todas as fases do crescimento, obedecendo um planejamento elaborado pelo diretor de produção da empresa, Marcos Lopes, também proprietário da Piscicultura Aracanguá, de onde partem os 280 mil alevinos de 30 a 35 gramas, que abastecem mensalmente a engorda da Tilápia do Brasil (foto 4).

Foto 4 – Marcos Lopes, diretor de produção e sócio da Tilápia do Brasil, é também proprietário da Piscicultura Aracanguá, empresa fornecedora de alevinos para a engorda da empresa
Foto 4 – Marcos Lopes, diretor de produção e sócio da Tilápia do Brasil, é também proprietário da Piscicultura Aracanguá, empresa fornecedora de alevinos para a engorda da empresa

Para dar suporte às suas três pisciculturas, a empresa conta ainda com 35 funcionários que se ocupam do povoamento, repicagem de juvenis, biometria, alimentação duas vezes ao dia e da despesca. Todas essas informações são centralizadas e controladas por um software especialmente desenvolvido, capaz de orientar todas as operações de rotina, e informar, a cada dia, o peso médio dos peixes em cada uma das gaiolas das três pisciculturas da empresa. Isso permite que Marcos Lopes, responsável pela concepção do manejo diário das pisciculturas, saiba quais as gaiolas disponíveis para receber os novos alevinos, quais as que estão povoadas com juvenis e necessitam ser repicadas e, quais as que precisam ser separadas para a despesca final. Por trás de tudo isso, um mundo de dados voltados para que o frigorífico não deixe de ser abastecido todos os dias com tilápias com peso médio de um quilo. Essas informações, é claro, permitem também que todos os peixes produzidos na empresa Tilápia do Brasil possam ser rastreados, desde o seu nascimento até o abate.

Do abate até o produto final

Ao chegarem já abatidas nas dependências do frigorífico, as tilápias passam por uma máquina que retira as escamas (fotos 5a e 5b). Em seguida entram no salão de processamento, onde os peixes são filetados inteiros, sem serem eviscerados (fotos 6 a 10 ). A pele dos filés é retirada em máquina apropriada (foto 11), e estão prontos para o toalete necessário para atender o mercado internacional, ocasião em que são retirados os restos de cartilagem (corte em V) e possíveis espinhas. (fotos 12, 13 e 14).

A seguir, os filés são selecionados por peso e têm a sua temperatura abaixada (0 ºC) antes de serem colocados em caixas de isopor, onde é acrescentado gel pack que irá manter a temperatura adequada para o transporte (fotos 15, 16 e 17). Na temperatura ambiente, na sombra e sem refrigeração, o gel pack assegura que o produto chegará a 4 ºC graus, 36 horas após ter sido embalado, ou por muito mais tempo se o ambiente receber alguma refrigeração.
O rendimento na filetagem voltada para a exportação é de apenas 30%, o que significa que atualmente, por estar filetando oito toneladas por dia, a Tilápia do Brasil tem que lidar com um rejeito diário de 5,6 toneladas (foto 18). Esse produto está sendo enviado para a produção terceirizada de farinha (18% de rendimento) e óleo (15% de rendimento), que são comercializados para empresas fabricantes de ração, ajudando no faturamento da empresa. Até o final deste ano, os acionistas decidirão, ou não, por um financiamento junto ao BNDES para a aquisição dos equipamentos da sua própria graxaria. Em breve, será decidido se as peles que sobram serão também processadas por essa empresa que, junto ao filé de tilápia também exporta o nome do País.