TRUTICULTURA:

A Indústria Cresce apesar da Competição Predatória dos Produtos Importados

Por: Cláudio Schmidt – Presidente da ABRAT – Associação Brasileira de Truticultores


A truta arco-íris Oncorhynchus mykiss é um salmonídeo originário da vertente Pacífica da América do Norte, cuja distribuição natural se estende do sul do Alasca até o norte do México. Por apresentar excelentes características tanto para aqüicultura quanto para a pesca esportiva, encontra-se amplamente distribuída em todas as águas frias do mundo, exceto no continente Antártico. Sua propagação artificial teve início em 1874 pela transferência de ovos embrionados do rio MacCloud no norte da Califórnia para o Estado de Nova York. A primeira exportação realizada com sucesso ocorreu em 1874 para Tóquio. Foi introduzida na França em 1879 e daí disseminada por toda a Europa, onde seu cultivo como atividade industrial iniciou-se na Dinamarca em 1890. Com exceção da carpa comum, a truta arco-íris é, provavelmente, uma das espécies mais antigas empregadas em cultivo.

Além de sua capacidade de adaptação a diversos sistemas aquáticos (rios, lagos, represas, tanques, laboratórios de incubação, tanques-rede, etc…) a truta arco-íris apresenta um alto grau de domesticação: ambos os sexos amadurecem em cativeiro, os gametas podem ser facilmente coletados, a fertilização é realizada externamente, aceita alimento artificial desde a primeira alimentação e permite uma série de manipulações no tocante ao controle da sexualidade. Essas características aliadas ao elevado valor comercial fizeram da truta arco-íris uma das espécies mais intensamente pesquisadas e um dos salmonídeos mais cultivados conforme pode ser visto na Tabela 1.

A tabela 2 a seguir relaciona os principais países produtores e suas respectivas produções em toneladas, computadas entre os anos 1985 até 1994.

A França, a Dinamarca, Itália e Chile lideraram, segundo avaliação da FAO de 1996, a produção de truta arco-íris.

Na década de 80 a indústria trutícola européia apresentou um crescimento moderado, mas apesar do aumento do número de produtores e do volume de produção o preço manteve-se estável. A previsão feita no início da década de 80, de que um aumento da produção provocaria uma saturação do mercado com uma conseqüente queda de preços não ocorreu devido a interação entre as condições favoráveis de mercado e a habilidade da indústria em se organizar e aproveitar as oportunidades apresentadas. Com a mudança de estilo de vida e do padrão de consumo, o consumidor tem dado preferência a alimentos mais saudáveis como os peixes, bem como a produtos de fácil preparo para o consumo. Além disso, dentre os peixes, a oferta de pescado capturado tem diminuído, com conseqüente aumento do preço enquanto que o preço da truta permaneceu estável.

A maior parte da produção dos países da Comunidade Européia é direcionada para o consumo doméstico, sendo a importação ou a exportação pouco praticadas. A comercialização é feita nas formas: fresca, eviscerada ou não, viva, filetada, defumada e congelada. Esta última é restrita principalmente à truta porção. Com a melhoria dos sistemas de resfriamento e de distribuição, o produto fresco ainda permanece o preferido, mas o consumo da truta filetada vem aumentando.

Nos Estados Unidos e na maioria dos estados europeus a truta é comercializada na forma de truta porção, com pesos variando entre 200 e 350 gramas e no Japão entre 100 e 150 gramas. Na Noruega, entretanto, a truta tem sido comercializada com pesos entre 2 e 3,5 kg. Conforme pode ser visto na tabela 3, o Chile é o primeiro entre os países da América do Sul na produção de trutas.

Brasil

No ano de 1996, o Brasil importou 6.5 mil toneladas de salmão chileno, o que corresponde a apenas 3,7% da produção total de salmonídeos daquele país. Calcula-se que as importações totais de salmões e trutas do Chile foram de aproximadamente 20.000 toneladas no ano de 1997. Atualmente, com uma política cambial mais realista, acredita-se que tenha havido uma substancial redução no volume de importações de salmonídeos, porém, ainda é grande a quantidade de trutas e salmões beneficiados importados pelo Brasil, vindos principalmente do Chile, o que cria uma competição desleal com os produtores nacionais.

Introdução e Desenvolvimento da truta arco-íris no Brasil

A truta arco-íris foi introduzida no Brasil em 26 de maio de 1949, inicialmente na Serra da Bocaina, município de Bananal, por meio de 5.000 ovos embrionados procedentes da Dinamarca, trazidos pelo Dr. Ascânio de Faria. Um ano depois, mais 50.000 ovos foram importados do mesmo local e incubados no recém organizado Posto de Biologia e Criação de Trutas em Bananal, onde foram distribuídos para vários municípios do sudeste e sul do Brasil. Posteriormente, foram realizadas várias importações de ovos embrionados de diferentes procedências, até que na década de 70 iniciaram-se os primeiros trabalhos sobre reprodução artificial desta espécie no Brasil. No princípio desta mesma década foi instalada em campos do Jordão-SP a primeira truticultura comercial. Atualmente existem mais de 100 truticulturas localizadas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de janeiro, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande  do Sul e Espírito Santo.A maior parte dos ovos embrionados ou alevinos necessários para atender à demanda são produzidos pelos próprios criadores e por duas entidades governamentais; Estação Nacional de Truticultura do IBAMA, localizada em Lages-SC e a Estação Experimental de Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria do Instituto de Pesca da Secretaria de Agricultura de São Paulo, localizada em Campos do Jordão – SP, sendo pouco praticadas as novas importações, reduzindo, deste modo, o risco da entrada de doenças.

Por estar restrito às águas frias, a exploração de salmonídeos se limita aos tipos residentes em água doce (land locked). Além da truta arco-íris, em janeiro de 1991, por iniciativa de criadores particulares, foi introduzido o salmão do Atlântico (Salmo salar), originário da costa leste norte americana, por meio de um lote de 100.000 ovos embrionados procedentes de New Port – Grã Bretanha. A importação deste salmonídeo se repetiu por 2 anos consecutivos e os salmões que atualmente estão sendo comercializados, principalmente nos pesqueiros, são originários dessas introduções. Apesar das tentativas de se realizar a reprodução artificial com esta espécie, os resultados obtidos até o momento são pouco satisfatórios.

Os limites críticos da temperatura da água de sobrevivência da truta arco-íris são 0 e 25 graus, entretanto, sob condições de cultivo intensivo, a faixa recomendada situa-se entre 10 e 20 graus. A truta apresenta suas melhores taxas de crescimento entre 15 e 17 graus e os melhores índices reprodutivos em temperaturas próximas a 10 graus. Assim sendo, os locais favoráveis ao cultivo da truta no Brasil, se restringem aos locais de maiores altitudes das regiões Sudeste e Sul, onde na maioria dos casos os rios apresentam pouco volume de água associado ao fato que, nessas regiões, a pressão atmosférica é menor, implicando na diminuição do teor de oxigênio dissolvido na água.

Como o potencial de produção de uma truta está diretamente relacionada com a oferta de oxigênio disponível, nossos rios apresentam menor capacidade de produção quando comparado aos do hemisfério norte. Estas limitações impostas pela pouca disponibilidade de água obriga o truticultor brasileiro a uma exploração bastante racional dos recursos hídricos através da otimização das instalações e da adequação dos manejos. Portanto, o local escolhido para a implantação de uma truticultura deve oferecer durante o ano todo, água com qualidade e, em quantidade não apenas para o desenvolvimento inicial, mas também, para futuras expansões, e ainda, estar situado em região de fácil acesso para facilitar o escoamento da produção.

As amplitudes de variação da temperatura e da vazão, no decorrer das 4 estações do ano devem ser conhecidas, a fim de se estabelecer os períodos mais propícios para a intensificação da exploração da espécie. Se a temperatura da água permanecer próxima aos valores críticos, por período muito prolongado poderá comprometer a viabilidade do empreendimento. O conhecimento das variações da temperatura irá definir se o local em questão permite a exploração do ciclo completo de produção da truta, isto é, se permite realizar o processo de reprodução artificial, ou apenas a engorda desses animais. Além da temperatura, o volume de água é outro fator decisivo para a escolha do local, pois o escalonamento da produção e a quantidade de peixe a ser produzido são determinados pelo menor volume de água disponível no decorrer do ano (estiagem). O volume de água irá interferir, também, na definição do tipo de instalação a ser usado e do número de unidades a serem construídas.

Tanques

O sistema “raceway” demanda água de alta qualidade e fluxo elevado. Os tanques-rede necessitam de corpos de água extensos e profundos e com temperaturas que permaneçam dentro da faixa térmica favorável para a truta. Os tanques de concreto se mostram mais adaptáveis às regiões de topografia mais acidentada, portanto, são os mais adequados para as nossas condições ambientais.

Os tipos de tanques que têm sido mais empregados pelos truticultores brasileiros são os de concreto armado, de forma circular. Apesar de apresentarem um custo de construção mais elevado e de demandarem maior área, apresentam a vantagem de utilizar a água de modo mais eficiente e serem mais duráveis.

Como já foi mencionado anteriormente, no Brasil, a maioria dos recursos hídricos compatíveis com o desenvolvimento da truta são pouco volumosos resultando em instalações de pequenos porte. Nesses casos, para se aumentar a produção deve-se buscar alternativas de suplementação de oxigênio e a adoção de sistemas de produção em circuito fechado com o reaproveitamento da água.

Alguns truticultores adotaram o uso de oxigênio puro injetado nos tanques, entretanto, como trata-se de adaptações em tanques convencionais, a eficiência do sistema é bastante reduzida e conseqüentemente o custo é elevado.

Nos sistemas intensivos é necessário proceder o tratamento de efluentes antes de retornar a água ao leito original. Tecnicamente, a filtragem biológica seria o melhor mecanismo para reduzir a amônia e o fosfato dos efluentes, porém, o grande volume a ser tratado torna este método inviável nas salmoniculturas.

Para minimizar a carga de poluente recomenda-se a construção de tanque de decantação situado de modo a recolher todas as águas derivadas das unidades de cultivo. Sua superfície deve ser equivalente a 10% da superfície total e construído de forma que favoreça a sedimentação.

A produção de Trutas no Brasil

A inexistência de dados estatísticos concretos dificulta a confecção de tabelas precisas para ilustrar a evolução da produção de trutas no Brasil. Contudo, por meio de contatos mantidos com diversos truticultores filiados à ABRAT, com a EPAGRI – SC e com todos os setores envolvidos com a atividade é lícito dizer que a truticultura vem apresentando um crescimento constante, tanto na produção, quanto no número de produtores.

A tabela 4 abaixo relaciona os estados brasileiros produtores de truta, com as respectivas produções e quantidade de produtores, estimada conforme acima citado.

A truticultura é um segmento que se encontra relativamente bem organizado, com uma associação de classe bastante atuante e que vem trabalhando em busca de soluções para os problemas enfrentados pelos produtores. Entretanto, com a formação do Mercado Comum do Cone Sul-Mercosul, urge conduzir a atividade dentro de uma nova postura pois neste novo cenário, marcado por um mercado altamente competitivo e até predatório, torna-se fundamental produzir com qualidade e com redução de custos.

No Brasil, como a temperatura da água é mais elevada, a truta apresenta desenvolvimento embrionário e crescimento mais rápidos do que nos países onde é comumente cultivada. A maior parte da truta produzida no Brasil tem sido comercializada em restaurantes, na forma de truta porção, com pesos variando entre 250 e 350 gramas, que podem ser alcançados ao redor de 10 meses de cultivo. Dentro deste contexto, as regras para atrair a atenção do consumidor para um produto exposto nas prateleiras dos supermercados, cercado de centenas de outros itens alimentares alternativos, vão além de uma embalagem bem elaborada.

Com a mudança de estilo de vida e do padrão de consumo, o consumidor tem dado preferência a alimentos mais saudáveis como os peixes, bem como, a produtos de fácil preparo para consumo. Além disso, dentre os peixes, a oferta de pescado capturado tem diminuído, com conseqüente aumento do preço, enquanto que o preço da truta permaneceu estável.

A agregação de valores ao produto, tais como a pigmentação da musculatura com o uso de rações contendo astaxantina, a defumação, a filetagem com retirada dos espinhos, o pré-cozimento, etc… exige uma maior incorporação de tecnologia e conseqüentemente acarreta um acréscimo no custo de produção. Este nível de profissionalização é impraticável para o pequeno produtor isoladamente. A organização dos criadores em sistemas cooperativistas poderia ser uma alternativa para viabilizar a adoção de novas tecnologias de produção e de estratégias de comercialização. Outra alternativa para a viabilização de novas tecnologias de produção e manejo, aliado a modernas técnicas de comercialização para pequenos produtores, seria a adoção de produções consorciadas a um grande produtor e/ou a uma unidade de processamento, em cada região ou núcleo produtivo.

A grande maioria dos truticultores comercializa suas trutas evisceradas e congeladas, o que implica em processo de industrialização que está sujeito ao cumprimento de rígidas normas dos órgãos de fiscalização sanitária, normas estas que exigem altos investimentos em instalações e equipamentos, que acabam por colocar na clandestinidade a grande maioria dos piscicultores. Novamente a solução para este problema está no cooperativismo ou no sistema de consorciação de pequenos produtores com unidades de beneficiamento.

A truticultura brasileira, pela forma como é praticada hoje, é responsável por uma receita anual de R$ 12.000.000,00. Adotando-se um programa de desenvolvimento sustentável da truticultura, que consiga solucionar os entraves do setor, estima-se que num período de 5 anos, a receita gerada pelo setor ultrapasse a casa de R$ 50.000.000,00 anuais, além de gerar aproximadamente 2.000 empregos diretos.

Principais Entraves para o Desenvolvimento da Truticultura no Brasil

 A ABRAT –Associação Brasileira de Truticultores identificou como principais entraves para o desenvolvimento sustentável da truticultura os pontos a seguir:

– Competição predatória de produtos importados, principalmente defumados e filets.
– Falta de qualificação profissional do pessoal envolvido na atividade.
– Falta de profissionalismo e ausência de modernas técnicas de manejo na produção.
– Ausência de dados e informações estatísticas do setor de aqüicultura.
– Falta do melhor conhecimento das doenças.
– Péssimas condições das vias de acesso às produções, dificultando o escoamento da produção.
– Baixa conversão alimentar. Rações sem um padrão de qualidade constante.
– Tanques com alto custo de montagem.
– Ausência de estudos visando o melhoramento genético.
– Importação de ovos embrionados com riscos de introdução de doenças.
– Dificuldades na comercialização, principalmente por parte de pequenos produtores.
– Falta de oferta de financiamento para os investimentos e para o custeio da produção.
– Complexidade das legislações a que estão sujeitos os piscicultores (União, Estados e Municípios – Leis ambientais, físicas, comerciais e sanitárias).
– Falta de cooperativismo.