Um bate-papo com o Samuel

Panorama – Samuel, falou em rã e está lá o seu nome. As pesquisas, os artigos, os livros e agora a fita de vídeo. O que levou você a se interessar pelas rãs? Você era daqueles garotos que tinham uma rã como animal de estimação?

Samuel – O meu interesse pelas rãs começou com os trabalhos de dinâmica de populações coma rã-manteiga, Leptodactylus ocellatus. Em 1976, após haver constatado que a caça desses animais é que abastecia o mercado de rãs, construí no sítio de um colega, em Viçosa, um pequeno ranário, ganhando logo um atestado de incompetência para criá-Ias. Mais tarde concluí que as dificuldades que encontrei, eram as mesmas encontradas pelos ranicultores na criação de rã-touro, uma espécie exótica. Os primeiros resultados positivos para criar a rã-manteiga só fui obterem 1982, a nível de laboratório, em um projeto financiado pela Fundação Banco do Brasil, ex FIPEc. Estes resultados é que serviram de plataforma para o desenvolvimento do sistema anfigranja, da qual a rã-touro se beneficiou.

Panorama – São muitos anos de experiência. Está satisfeito?

Samuel – Sim. E é esta satisfação que alimenta minha perseverança em contribuir para viabilizar zootecnicamente a ranicultura através da formação de uma “escola” que dará continuidade ao trabalho.

Panorama – E a parceria com o Cláudio(*)? Existe aquele negócio de um faz a letra e o outro faz a música… ou ambos fazem letra e música?
(* Cláudio Ângelo Coutinho é zootecnista, Mestre em Genética e Melhoramento pela UFV e Doutor em Ciências – Ecologia e Recursos Naturais, pela UFSCar. Cláudio e Samuel escreveram juntos, entre livros e artigos, extensa obra sobre rãs e ranicultura).

Samuel – As duas alternativas são verdadeira mas agora teremos que cantar à distância, pois o Cláudio está sendo contratado pela UNESP de Botucatu. A dupla atualmente já tem outros parceiros, cuja maioria é formada de professores ou técnicos de diversas instituições de pesquisa. Para você ter uma idéia, nesse mês vai ser defendida a 12Q tese desenvolvida no ranário experimental da UFV.

Panorama – A UFV foi fundamental para todo o sucesso do trabalho de vocês. O produtor hoje bate na porta da UFV. Isso é muito bom para uma universidade e dá ao pesquisador mais autonomia. E um bom exemplo de casamento bem sucedido, inclusive gerador de recursos, para a Universidade e para os pesquisadores. Isso é coisa de primeiro mundo. Como é que vocês conseguiram fazer isso acontecer?

Samuel – Creio que é a simbiose tecnológica. O produtor estimula o pesquisador, que por sua vez solicita recursos para ter as mínimas condições para desenvolver seus trabalhos. Recebe apoio das instituições de fomento à pesquisa, e assim a universidade cumpre o seu papel. Pena que este ciclo é extremamente lento e penoso mas, com determinação, vamos conseguindo chegar lá.

Panorama – Samuel, você diria que os resultados das pesquisas sobre a ranicultura estão sendo transferidos para o campo de forma satisfatória?

Samuel– Mais ou menos. A divulgação através de livros e fitas de vídeo é a nossa tentativa de transferir a nossa tecnologia à comunidade. Como não temos condições de dar assessoria à todos, os nossos ex-alunos da pós-graduação é que estão, gradativamente, contribuindo para irradiar esta transferência. Mas este processo está muito lento e a ranicultura ainda corre um grande risco de ser desacreditada. Com pouco suporte tecnológico, vários ranários são candidatos a encerrar suas atividades, porque, assim como as outras especialidades da aqüicultura onde o níveltecnológico ainda é muito incipiente, cursos, projetos e equipamentos, que são verdadeiras “caixas pretas”, ainda são vendidos aos incautos.

Panorama – O Brasil é grande, vários climas, vários mercados…Com rápidas pinceladas, pinte o perfil do produtor rural que pode se candidatar a ranicultor.

Samuel – Um piscicultor poderá facilmente adaptar seus viveiros para criar os girinos, fornecendo os imagos aos ranicultores que se dedicam a recria. Os avicultores podem facilmente adaptar seus galpões para esta etapa, principalmente durante o período de verão na Região Sudeste. O perfil do ranicultor não se enquadra àqueles que possuem outra atividade da qual sobrevive e durante o fim de semana tenta cuidar de sua criação em seu sítio. Estes, correm sérios riscos de perderem seu dinheiro e todo o seu esforço.

Panorama – Prá finalizar, cá entre nós e os leitores da Panorama:…a ranicultura é um bom negócio?

Samuel– Atualmente a ranicultura é uma atividade que oferece um dos melhores pay-back do setor de produção animal, tanto assim que estou a procura de um capitalista, para ser meu sócio no meu projeto.