Um complô contra o salmão….

Confrontos entre fornecedores tradicionais de pescados e os novos empresários da aqüicultura deverão tornar-se cada vez mais freqüentes.

Por: Philip C. Scott
Universidade Santa Úrsula
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Se há uma conclusão sobre o assunto do “salmão contaminado” – apontado pelo recente estudo publicado na respeitada revista Science – é que não há evidência de risco para a saúde humana no seu consumo. Mas, até se chegar a esta conclusão, um grande espaço de imprensa internacional e nacional foi ocupado com o assunto. Prejuízos financeiros em todos os elos da cadeia produtiva do salmão do Atlântico foram a conseqüência e, mesmo potencialmente, macularam a respeitabilidade de toda a indústria de aqüicultura.

As falhas do ponto de vista científico no estudo são muitas, e acredito que um grande número de cientistas sérios, que contam com esse conceituado journal periódico para aumentar sua pontuação acadêmica – e por conseguinte chances de obtenção de verbas para pesquisa – devem ter ficado decepcionados em ver o artigo ser aprovado para a publicação após passar pelo famoso peer review – o processo de avaliação entre pares do ramo – que normalmente demora meses, e invariavelmente volta aos autores para revisão antes da aprovação do texto final para publicação.

Aos fatos

As amostras de salmão do Atlântico de oito regiões produtoras no mundo, junto com amostras de amostras de cinco espécies de salmão do Pacífico (capturados pela pesca) foram analisadas para verificar a concentração de 14 contaminantes de organoclorados (PCB’s). NENHUMA das amostras ultrapassou o patamar estabelecido pelo FDA (Food and Drug Administration, EUA), ou do seu equivalente canadense, ou mesmo da Organização Mundial de Saúde! Os níveis ficaram entre um quarenta avos (1/40) e um oitenta avos (1/80) do critério de ação do FDA.

Não satisfeitos com este resultado, em si bastante significativo, os autores passaram a interpretar os dados como um risco para a saúde humana, medido na forma de “quantidade de refeições consumidas por mês”. Se basearam numa orientação criada pelo EPA (Environmental Protection Agency – EUA) que visa ajudar o povo norte-americano a minimizar riscos à saúde através de consumo de produtos alimentícios com níveis conhecidos de contaminantes. O detalhe é que, com respeito ao consumo de pescado, a orientação do EPA só se aplica a pescado de origem esportiva, e não a espécies comerciais. Ainda mais: baseia-se num período de consumo de 70 anos, ou seja, a expectativa de vida humana. O polêmico artigo publicado na Science, teve sua análise de dados baseada nesta medida e, como se não bastasse, chegou a conclusão que o consumo de salmão do Atlântico deveria ser apenas “de meia a duas refeições por mês”, enquanto que o salmão do Pacífico (selvagem) poderia ser consumido “em oito refeições no mês”. Não foi feita referência ao período de consumo, que de acordo com a lógica utilizada deveria ser ao longo de 70 anos. Os autores concluíram as suas análises afirmando que as concentrações de contaminantes são “significativamente mais altas” no salmão cultivado do que no seu similar selvagem, e que o consumo do salmão do Atlântico cultivado pode colocar em risco a saúde humana mais do que os benefícios alcançados pelo seu consumo.

Pesquisa tipo queijo suíço….

No trabalho, os autores, o editor e o referee (pessoa que aprecia o artigo) esqueceram que: 1. O salmão do Pacífico é uma denominação genérica que engloba diversas espécies, com hábitos alimentares totalmente distintos quanto a piscivoria (o salmão Chinook), ou ao consumo de plâncton (salmões Sockeye e Chum). As conseqüências disso se refletem em requerimentos nutricionais e funções metabólicas distintas para cada espécie. Os verdadeiros piscívoros considerados no estudo – salmão do Atlântico e o Chinook, têm 200% mais gordura do que seus aparentados, o salmão Chum e Pink, e isso se traduz em qualidade e preferência do consumidor que está disposto a pagar mais pelo peixe mais gordo e saboroso, enquanto que os outros, acabam indo para enlatados, ou pior, têm suas ovas extirpadas a bordo, e o resto é simplesmente jogado ao mar. Os PCB’s, se concentram na cadeia alimentar, e particularmente na gordura animal, portanto, ficaram juntos no mesmo balaio os peixes planctófagos com os piscívoros, demonstrando a total falta de rigor científico.

Outras conclusões

Os PCB’s encontrados no estudo, estão na ordem de milionésimo de um milionésimo de uma grama! (ou seja partes por bilhão). Mas para que serve a estatística? A técnica utilizada no estudo é duramente criticada, sendo conhecida como uma “extrapolação linear forçada em zero”, cujo resultado seria como comparar as doses diminutas encontradas no peixe com os efeitos em ratos de laboratório alimentados com grandes quantidades do mesmo produto químico. Sendo assim, para se ter uma idéia do que isso representa, todos nós estaríamos já mortos devido aos efeitos mutagênicos do oxigênio, sem falar no sal, pimenta e mostarda que consumimos.

O salmão de criação usado no estudo, e chamado de “escocês” (Scottish Salmon – salmão do Atlântico) foi comprado em diversas bancas de supermercados na Europa, podendo até ter sido criado na Noruega ou Irlanda. Mas, os autores relacionaram os níveis de PCB’s do salmão cultivado na Europa, com uma espécie totalmente diferente, o salmão do Pacífico, sem falar que o salmão do Pacífico usado na pesquisa foi produto de captura, portanto não cultivado nem alimentado com ração balanceada, teoricamente a origem dos PCB’s. E ainda mais, sequer incluíram o salmão do Pacífico de Puget Sound ou Copper River os locais de captura mais tradicionais, onde por acaso, os níveis de PCB’s são mais altos do que o salmão do Atlantico cultivado.

O trabalho falhou ao notar que mais de 8.000 ton, de salmão do Atlântico e truta do mar ainda provêm da pesca e que, a produção atual em tanques-redes do salmão do Pacífico já ultrapassa as 475.000 ton.! Quer dizer, Hites, Carpenter e colegas de pesquisa, insistiram em comparar ‘alhos com bugalhos’. Ou seja comparar o salmão do Atlântico criado em tanques-redes com ração balanceada, ao salmão do Pacífico sendo oriundo da pesca e composto por diversas espécies com hábitos alimentares muito distintos. Fizeram questão de não poder “achar” salmão do Pacífico criado em tanques-redes para comparar.

Saldo

Acaba que o artigo publicado na Science tachou de vilão o salmão cultivado escocês de forma vingativa e sem sustentação científica. Há o consenso que trata-se de um caso de ação judicial que poderia ser movido pela indústria escocesa. Bem podemos deduzir que tanto o editor da Science e os cientistas em questão estão seriamente desacreditados, mas o problema gerado foi, desta vez, além da área acadêmica. Hoje, o grande público se encontra soterrado por montanhas de informação, disponíveis como nunca antes imaginado. No entanto, sua capacidade de escolher e selecionar a informação que vai digerir ainda é limitada pelas 24 horas do dia, e agressividade da mídia. O espectro de qualidade dos meios de imprensa, é tão variado como a própria biodiversidade, mas quando um periódico científico respeitável como a Science publica um artigo que sustenta que os malefícios do consumo de um peixe cultivado são maiores do que os benefícios alcançados pela sua ingestão, algo está muito errado.

De fato, sabemos que há grupos ativistas preocupados e contra a criação de animais em cativeiro, por diversos motivos. No caso do artigo publicado na Science, houve uma iniciativa ostensiva de partes interessadas em divulgar estes resultados junto à grande imprensa e televisão ao que sabemos na França e Brasil, mesmo antes do estudo ter sido publicado! Infelizmente, o uso de artigos cientificamente furados como este, pode ter um grande impacto, o que pôde ser observado imediatamente pós-publicação, pelos prejuízos à indústria e desorientação do consumidor em relação aos benefícios que o consumo de pescado cultivado tem para a saúde humana.

Os pesquisadores sob a direção de Ronald Hites da Indiana University e seus colegas de mais 5 instituições receberam patrocínio de US$ 2.530.000 da Pew Foundation, que tem investido generosamente no assunto de salmão do Pacífico. O fundo de pesquisa do Dr. Hites, na verdade, foi verba transferida pelo Tides Center, uma ONG que se propõe a promover a ‘sustentabilidade’, na visão de Thoreau. As comunidades tradicionais (indígenas) do Alaska e Canadá já há algum tempo sentem-se muito pressionadas pela salmonicultura industrial do salmão do Atlântico que cresce naquela região. O grupo norueguês Pan Fish está construindo uma alevinagem e deve aumentar ainda mais o número de tanques-redes na região, produzindo bem próximo de um dos maiores mercados de salmão, o norte-americano.

Finalmente, um alerta: com o crescente fracasso observado em todo o mundo, em alcançar a sustentabilidade dos estoques pesqueiros, sem dúvidas a aqüicultura tornou-se uma alternativa viável e econômica para oferecer pescado fresco e saudável para o consumidor atento à qualidade de alimentos. Assim, os confrontos abertos ou velados entre os fornecedores tradicionais de pescados (leia-se pesca extrativa) e os novos empresários da aqüicultura deverão tornar-se cada vez mais freqüentes.