Um em cada três peixes pescados no mundo apodrece ou é descartado

Maior parte do desperdício acontece por falta de equipamentos adequados, aponta relatório da FAO


ROMA — Um em cada três peixes pescados em todo o mundo nunca chega ao prato da população, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgado hoje. Ou ele é jogado fora, ou apodrece antes mesmo de ser comido. Apesar dos alertas sobre o esgotamento dos estoques de peixes, a produção global de pescado continua crescendo, segundo o mesmo documento. O “Estado Mundial da Pesca e Aquicultura”, publicado a cada dois anos, mostra que em 2016 foram produzidas 170,9 milhões de toneladas de peixe, incluindo pesca e aquicultura.

Ao mesmo tempo, a quantidade de peixes capturados na natureza praticamente não mudou desde o final dos anos 1980. As fazendas de peixes continuarão a se expandir, segundo a FAO, que prevê que até 2030 estaremos ingerindo quase 20% a mais de peixes, como sustento da crescente população global.

Os peixes são fonte de nutrição para bilhões de pessoas no mundo todo, mas a sobrepesca é abundante em algumas regiões, como Mediterrâneo, Mar Negro e no Sudeste do Pacífico. Análises anteriores que incluem estimativas para a pesca ilegal indicam que os estoques de peixes selvagens estão diminuindo mais rápido do que sugerem os dados da FAO e que a pesca industrial acontece em pelo menos metade dos oceanos do mundo.

Em entrevista ao Guardian, o diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, afirmou que desde 1961 o crescimento anual de consumo de peixes é duas vezes maior que o crescimento da população. “Isso mostra que o setor é crucial para que a meta da FAO de um mundo sem fome e desnutrição seja atingido. Há ainda muitos desafios, mas iniciativas recentes para colocar um fim na pesca ilegal serão um ‘ponto de virada’ para a conservação a longo prazo”, disse Graziano.

Desperdício chega a 35% de toda a pesca mundial

O relatório da entidade mostra ainda que 35% da pesca mundial é desperdiçada. Cerca de um quarto destas perdas se dão por causa de devoluções, principalmente de arrastões, quando os peixes são devolvidos mortos ao mar porque são pequenos ou de uma espécie não desejada.

A maioria das perdas, no entanto, são consequência da falta de conhecimentos ou equipamentos, como máquinas de refrigeração ou gelo, necessárias para manter os peixes frescos.

A FAO trabalhou com nações em desenvolvimento para reduzir perdas, incluindo o uso de estantes elevadas para a secagem de peixes, o que resultou em uma diminuição de 50% no desperdício nas perdas do lago Tanganica, na África. Em todo o Oceano Índico, instalações apropriadas para lidar com a colheita de caranguejo, por exemplo, reduziram as perdas em 40%.

O documento divulgado hoje também traz os grandes números da pesca global: 60 milhões de pessoas são empregadas pelo setor e há 4,6 milhões de navios de pesca no planeta. Esse enorme esforço é preocupante em muitos lugares, diz a FAO, com barcos demais e peixes de menos. O relatório também informa que as mudanças climáticas vão afastar os peixes das águas tropicais quentes, onde as nações muitas vezes dependem especialmente de frutos do mar.

Fonte: O Globo
https://oglobo.globo.com/sociedade/um-em-cada-tres-peixes-pescados-no-mundo-apodrece-ou-descartado-22867302