Um jeito taiwanês de criar bijupirá

O olhar de um brasileiro sobre o cultivo comercial do bijupirá em Peng Hu, Taiwan

Por: Jorge Pan – Engenheiro de Aqüicultura
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O bijupirá, Rachycentron canadum, é um peixe marinho amplamente distribuído nas águas tropicais e subtropicais do planeta, portanto, muito comum no litoral brasileiro. Atualmente, muitos empreendedores brasileiros estão voltando seu olhar para o peixe, diante dos bons resultados zootécnicos apresentados nos cultivos realizados em outros países, onde muitas vezes as condições ambientais são ainda mais severas do que as encontradas nas águas do litoral brasileiro.

O cultivo desta espécie, também conhecida como “cobia”, na língua inglesa, tem se tornado popular em vários países asiáticos, principalmente em Taiwan, onde a reprodução em cativeiro é realizada com sucesso desde 1994, permitindo que o bijupirá seja a espécie mais cultivada no país, presente em 80% dos tanques-rede. O peixe chamou a atenção dos maricultores taiwaneses por superar todas as demais espécies cultivadas em gaiolas. Além do seu grande potencial zootécnico, com ganhos de peso de 4 a 6 kg em um ano e taxas de conversão alimentar que variam de 1,5 a 1,8:1, o peixe é muito valorizado no mercado interno, onde o quilo é comercializado entre US$ 4,60 a US$ 5,60.


No Brasil, é crescente o interesse pelo cultivo do bijupirá, com alguns empreendimentos sendo implantados em diversos pontos do litoral. Nesta edição convidamos o engenheiro de aqüicultura, Jorge Pan, para contar um pouco da sua experiência junto à empresa taiwanesa A&A – Agriculture and Aquaculture Technical Corporation, onde permaneceu por três meses, no início deste ano, desempenhando atividades rotineiras, típicas de uma fazenda de engorda em tanque-rede, envolvendo a confecção de ração, processamento de rejeitos de peixes para a alimentação, além da limpeza, troca e reparos dos tanques-rede. Jorge Pan é brasileiro, filho de pais taiwaneses, e acabou de concluir seu curso de graduação em Engenharia de Aqüicultura, na Universidade Federal de Santa Catarina.

Implantada em maio de 2004, a empresa A&A – Agriculture and Aquaculture Technical Corporation, está localizada na ilha de Peng Hu, ao oeste de Taiwan, e se dedica somente à engorda do bijupirá, destinando toda a sua produção ao comércio interno, principalmente aos mercados de peixes abatidos, eventualmente comercializando diretamente para restaurantes, onde o bijupirá é consumido como sashimi (peixe cru) e caldo de peixe, muito apreciado.

A área de cultivo da empresa está localizada numa baía onde, além do bijupirá, são também cultivadas ostras. O local do cultivo fica distante cerca de 250 metros da costa, em águas com profundidade variando entre 10 e 12 metros, sem a influência da água doce, onde a salinidade varia de 33 a 35‰ ao longo do ano. A temperatura máxima da água vária de 30°C no verão (entre os meses de maio a setembro) e até 13°C no inverno (meses de novembro a março). De janeiro a março deste ano, no período em que lá estive, a temperatura superficial da água variou entre 13,2°C e 20,7°C (Tabela 01).

Tabela 01 – Temperaturas máximas, mínimas e médias registradas no período de janeiro a março
Tabela 01 – Temperaturas máximas, mínimas e médias registradas no período de janeiro a março

No início deste ano, a engorda da empresa operava com 32 tanques-rede medindo cada um 8,0 x 8,0 x 6,0m, mas sua meta é estar operando com sua capacidade plena em 2006, quando 100 tanques-rede estarão em produção, ocupando uma área de 60.000 m2 de lâmina d’água (seis hectares).

Além da área de cultivo propriamente dita, a empresa possui uma área de apoio em terra constituída por um setor de armazenamento de rejeitos de peixes contendo câmara frigorífica; depósito de ração e de equipamentos; setor de limpeza e revisão de redes, constituída por uma área descoberta; alojamento, escritório e um almoxarifado. Atualmente, a empresa conta com uma equipe composta por um engenheiro de aqüicultura, uma secretária, quatro funcionários fixos e, de cinco a dez funcionários temporários, dependendo da época do ano. São quatro funcionários para a troca de rede, um para fazer a limpeza das redes, dois para revisão das mesmas e dois para confecção de ração e processamento dos rejeitos da pesca, também utilizados na alimentação dos peixes. No verão mais funcionários são contratados em função da necessidade de mão-de-obra adicional para o processamento de alimentos e da maior intensidade das trocas de rede.

Os Berçários

O cultivo do bijupirá na empresa A&A é dividido em duas fases: berçário e engorda. O berçário é constituído por tanques-rede de 128m3 cada (8,0 x 8,0 x 2,0 m) com malha de um centímetro, sustentados por flutuadores modulares que podem ser montados conforme o tamanho desejado.

Os alevinos de 30 dias, com peso médio de 4g e comprimento variando de 12 a 15cm são adquiridos no mercado local a 15,00 NTS cada (ou US$ 0,45 cada). São estocados normalmente nos tanques-rede nos meses de maio a junho, onde as temperaturas da água variam de 20 a 30o C. A densidade de estocagem inicial é 195 alevinos por m3 e aí permanecem por um período de 60 dias, alimentados com ração e rejeitos da pesca, até atingirem o peso médio de 175g e comprimento médio de 29cm.

Engorda

Os tanques-rede destinados à engorda são confeccionados com nylon multifilamento sem nós, com malha de 2,5cm, e volume de 384m3 cada (8,0 x 8,0 x 6,0m), sendo o volume útil de aproximadamente 370m3. Cada um deles é sustentado por flutuadores com 0,8 x 1,2 x 0,8m, feitos de isopor revestido com lona, que têm a função de proteção (Foto 1).

Foto 1 - Visão geral da estrutura dos tanques-rede
Foto 1 – Visão geral da estrutura dos tanques-rede

Os peixes, após os 60 dias de berçário, são transferidos para os tanques-rede de engorda e estocados na densidade inicial de 2.500 peixes/tanque (cerca de 7 peixes/m3). Após 30 dias na engorda, quando alcançam em média 330 gramas e 31 centímetros, o número de peixes em cada tanque-rede é ajustado para que fiquem apenas 1.000 peixes em cada tanque-rede (aproximadamente 2,7 peixes por m3), até o final do cultivo.

A alimentação é fornecida duas vezes ao dia, às 10h e às 16h. Ao longo do cultivo são fornecidos dois tipos de alimento: ração comercial úmida em pellets para peixes marinhos (45,3% de proteína bruta, 16% de concentração lipídica e 11,0% de cinzas) e rejeito da pesca industrial (Foto 2), bastante utilizado pelo reduzido custo. Entretanto, quando a temperatura cai abaixo de 16°C, somente o rejeito da pesca é utilizado, e pude observar que os peixes não se alimentavam com temperatura abaixo de 15°C.

Foto 2 – Alimentação de bijupirá com rejeito da pesca
Foto 2 – Alimentação de bijupirá com rejeito da pesca

Despesca e comercialização

Por influência do inverno na ilha de Peng Hu, as despescas são realizadas após um ciclo de 17-18 meses de cultivo, quando os peixes pesam ao redor de 6kg, obtendo uma sobrevivência final em todo o processo ao redor de 40%. A produção da empresa com os atuais 32 tanques-rede é de 120 toneladas e deverá chegar a 300 toneladas por cada ciclo de engorda em 2006, quando estiverem operando os 100 tanques-rede. A A&A comercializa no mercado interno de pescados, bijupirás menores que 5 kg por U$ 4,65/kg (150 NTS/kg), entre 6 e 7 kg a U$ 4,96/kg, entre 7 e 8 kg a U$ 5,26/kg e peixes maiores que 8 kg a U$ 5,57/kg.

Limpeza de rede

Um importante e inevitável manejo é o da troca e limpeza das redes, realizada a cada sete dias no período de inverno e a cada dois a três dias no período de verão, devido às maiores incrustações. As trocas de rede em pequenos intervalos visam facilitar a limpeza, evitando níveis de incrustação mais avançados. Desta forma a troca da rede é mais fácil e a limpeza mais eficiente.

No dia da troca, quatro funcionários são acionados e as redes limpas são transferidas para um barco específico para troca de redes. No local da troca, dois funcionários passam duas cordas já amarradas em dois cantos da rede limpa, para o lado oposto do barco. No barco, a rede limpa é desdobrada e uma manobra utilizando pesos amarrados à ambas as redes (limpa e suja) permite que, em sincronia, a rede limpa seja colocada no local e a rede suja seja retirada, enrolada a um cilindro (Foto 3) e trazida para uma área em terra onde é limpa com a ajuda de jato d’água (Foto 4). Normalmente, são trocadas até 10 redes por dia.

Após a limpeza, as redes são esticadas novamente e dois funcionários fazem a revisão detalhada, conferindo todas as partes. Se houver rasgos na rede, imediatamente é feita a costura. Após a revisão, são dobradas de forma a facilitar o trabalho de troca de rede.

Foto 3 – Barco específico para as trocas de rede
Foto 3 – Barco específico para as trocas de rede
Foto 4 – Limpeza da rede com lava jato
Foto 4 – Limpeza da rede com lava jato

Parasitas e Tufões

Com a intensificação do cultivo, problemas com doenças têm se tornado presentes nos cultivos, causando perdas consideráveis aos produtores. Os principais agentes causadores de mortalidades nos peixes na fase de engorda são as baixas temperaturas e os ectoparasitas Neobenedenia girellae e Caligus sp., que estão associados ao aumento da temperatura, e agem reduzindo a atividade alimentar, retardando o crescimento e escurecendo o corpo do peixe, reduzindo assim o valor no mercado.

De 25 de março deste ano até o dia 12 de abril, um a dois tanques-rede por dia foram tratados contra uma infestação de Neobenedenia e Caligulus. No tratamento, os peixes foram mantidos por cinco minutos em água doce contendo antibiótico (oxitetraciclina). Na prática, duas caixas d’água de 1000 litros são colocadas no barco, e no compartimento inferior é levada a água doce. Chegando ao tanque-rede escolhido para o tratamento no dia, a água doce é bombeada do compartimento inferior para as caixas, até completar 700 litros. O antibiótico é adicionado visualmente até a água adquirir um tom amarelo turvo. Um compressor ligado fornece a aeração necessária.

Na prática, o tanque-rede a ser tratado é separado em duas partes por uma corda amarrada no lado oposto ao barco e no próprio barco. Em seguida a rede é levantada manualmente até que quase todos os peixes se concentrem num dos lados. Os peixes, cerca de 70 por vez, são retirados da rede com puçás e transferidos para as caixas de 1000 litros. Após cinco minutos de banho, são devolvidos para o próprio tanque-rede, e contados se necessário. Ao separar o tanque-rede em duas partes, naturalmente um dos lados fica com uma menor quantidade de peixes e são esses os primeiros a serem tratados. É possível tratar até quatro tanques-rede por dia, ou seja, um tanque-rede em cada duas horas. Após o tratamento, é adicionado cloro na água utilizada, visando eliminar todos os parasitos que se soltaram dos peixes com o tratamento.

O inverno rigoroso em Peng Hu, com temperaturas na água de até 13,2 °C, como aconteceu durante minha estada no inicio deste ano, traz os riscos de mortalidades para os produtores de bijupirá nessa região. No sul de Taiwan, onde o inverno não é tão rigoroso e onde ocorre a maior parte dos cultivos aquáticos, o ciclo de cultivo é ao redor de 12 meses, ao contrário de Peng Hu, onde o tempo de cultivo é ao redor de 18 meses. Além do mais, a presença de tufões é outro fator preocupante, justificando-se a utilização de estruturas de tanques-rede bem flexíveis. Taiwan é um país com ocorrências de fortes tufões durante o verão e o outono, e o risco de perdas de tanques-rede é alto.


Agradecimentos:
O autor agradece ao supervisor Dr. Yii Shing Huang do Departamento de Aqüicultura da Universidade Nacional de Oceanografia de Taiwan e ao pessoal da empresa A&A – Agriculture and Aquaculture Technical Corporation.


Bibliografia:

CHOU, R.L., SU, M.S. e CHEN, H.Y. Optimal dietary protein na lipid levels for juvenile cobia (Rachysentron canadum). Aquaculture, n.193, p. 81 – 89, 2001

LIAO, C., HUANG, T.S., TSAI, W.S., HSUEH, C.M., CHANG, S.L. e LEAÑO, E.M. Cobia culture in Taiwan: current na problems. Aquaculture, n. 237, p. 155 – 165, 2004

ARNOLD, C.R., KAISER, J.BJ. e HOLT, G.J. Spawning of Cobia Rachycentron canadum in Captivity. Journal of the World Aquaculture Society. Vol.33, n.2, 2002.