Um olhar sobre a ranicultura brasileira

Por: Samuel Lopes Lima*
e-mail: [email protected] *Pesquisador visitante do CNPq


Os problemas pelos quais passa a ranicultura já foram há muito identificados. Idéias não faltam, mas os ranicultores continuam desorganizados e sem capital. Continuam perdendo grandes oportunidades de mercado por não agregarem valor aos seus produtos e não conseguirem estruturar a cadeia produtiva.

A comunidade acadêmica está trabalhando para apresentar soluções, mas cabe aos produtores definir os caminhos para tornar realidade as expectativas e potencialidades que se apresentam na situação atual da ranicultura brasileira.

As oportunidades do mercado externo

Com a desvalorização do real frente ao dólar, o preço da carne de rã brasileira passou a ser competitiva frente àquela proveniente da China, Vietnã, Indonésia e Turquia, que em sua maioria é originada da caça de animais silvestres, com abate e processamento duvidosos. Apesar da situação favorável, infelizmente o Brasil continua a exportar essencialmente as rãs vivas, sendo ainda pequenas as remessas de carne de rã congelada, geralmente direcionadas para o Mercosul e, mais recentemente, para a União Européia.

Para concorrer no mercado internacional, o Brasil terá que se preparar melhor, já que não temos volume de produção suficiente para atender aos pedidos. Sem capital de giro, os grupos mais organizados de produtores (cooperativas e associações), não conseguem manter a oferta regular, nem no mercado interno. Comparados com outras atividades zootécnicas, os 50 milhões de dólares transacionados anualmente na comercialização da carne de rã, é um valor irrisório, mas para o nosso pequeno ranicultor poderia significar a concretização do seu sonho.

As pressões dos ambientalistas contra o extrativismo da carne de rã no mercado internacional estão motivando os países produtores concorrentes a investirem na produção em cativeiro. Taiwan saiu na frente e já superou o Brasil. México e Equador deverão em breve também superar a nossa produção. Será que, mais uma vez demonstraremos nossa incompetência para conquistar mercados para os produtos brasileiros? Mas como superar os problemas para atender a tal mercado? Provavelmente um caminho seja o de fazer bem o dever de casa, ou seja, atender adequadamente o mercado interno, aprendendo a vender o peixe, ou melhor: a rã.

Os problemas

Os problemas da cadeia produtiva foram identificados e debatidos durante o Workshop “Cadeia Produtiva da Ranicultura”, realizado em Viçosa-MG, em 1999. A análise do levantamento contou com a participação de seis consultores independentes, que apresentaram sugestões aos principais agentes da cadeia, entre eles produtores, representantes das indústrias de abate e de insumos e, distribuidores, de forma a superar os principais estrangulamentos da atividade. Em reunião de grupos de trabalho, as sugestões foram discutidas e aprovadas em plenária, resultando na proposta que recebeu a denominação de “Programa de Desenvolvimento Tecnológico da Ranicultura (PRODERan), que consiste em um conjunto de ações estratégicas, estruturadas em seis núcleos de parcerias, envolvendo a iniciativa privada e instituições de pesquisa (institutos e universidades). Este programa está sendo implementado por um grupo de pesquisadores e aguarda novas adesões http://lattes.cnpq.br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo=0336504JGCU5QB

Passados quatro anos, vale a pena uma avaliação acerca dos possíveis avanços da atividade. Antes, um breve resumo dos problemas identificados:

Problemas da produção

Os principais problemas de ordem tecnológica identificados no levantamento efetuado em uma amostra constituída de 77 ranários mostraram que existem dificuldades na obtenção de desovas ao longo de todo o ano, particularmente na Região Sudeste, onde se concentra a maioria dos ranários brasileiros. A sazonalidade da reprodução dos animais faz com que as desovas ocorram principalmente durante a primavera e o verão, criando lacunas no ciclo produtivo do ranário e gerando entressafras da produção.

Elevadas mortalidades ocorrem principalmente na fase inicial da recria (imagos) levando a baixas produtividades. Os motivos são vários e geralmente sobrepostos, e estão associados à fase de girinos, tais como: deficiências nas instalações utilizadas, manejo alimentar incorreto, densidades elevadas, má qualidade da água, comprometendo a sanidade dos imagos (rãzinhas), que já se transformam debilitados.

O levantamento também indicou que existe grave lacuna na transferência tecnológica aos ranicultores, indicada como uma das responsáveis pelo baixo índice de produtividade da maioria dos ranários. A rede de assistência técnica governamental, geralmente não possui técnicos especificamente treinados para atender o investidor que quer iniciar na ranicultura. Em alguns casos, o interessado recebe apenas ajuda na indicação da literatura e contatos com ranicultores da sua região.

O perfil do ranicultor brasileiro geralmente se enquadra como pessoas de bom nível sócio-econômico e de formação em nível superior. Para elaborar o projeto e montar seu ranário, a maioria utiliza consultas superficiais à literatura (que é escassa), e breves contatos com os ranicultores vizinhos. O resultado tem sido lastimável: investimentos elevados sem consistência tecnológica, têm gerado fracassos e/ou re-investimentos que poderiam ser evitados.

Problemas na indústria de abate e processamento

Em 1999, ano em que foi elaborado o levantamento, 15 indústrias operavam no abate e processamento de rãs, sendo sete com registro nos serviços de inspeção federal e estadual (SIF e SIE), e oito que estavam com seus processos em andamento.

A falta de planejamento na implantação e a deficiência de gerenciamento foram indicadas como as principais responsáveis pelos elevados índices de ociosidade nas indústrias de processamento. O volume efetivo processado pelos abatedouros em 1998 foi de aproximadamente 19% da produção estimada nos ranários brasileiros. Na ocasião, a maioria operava com amadorismo em relação ao produto; não existia definição ou classificação (padrão de qualidade); as operações da linha de abate necessitavam de aprimoramento, com a substituição de improvisações grosseiras que afetavam o valor do custo operacional, considerado elevado. Enfim, não existia disponível no mercado, equipamentos e utensílios adequados à atividade e, finalmente, as exigências dos Serviços de Inspeção tinham, e ainda têm, interpretações diferenciadas, segundo cada região do país, havendo a necessidade de uniformização das mesmas. O levantamento indicou também uma falta de organização entre os agentes da cadeia produtiva, permitindo que ranicultores comercializassem diretamente seus produtos, originados de abates clandestinos e improvisados, o que traz sérios riscos sanitários e compromete a estruturação da atividade, contribuindo, principalmente, para inviabilizar a indústria de abate.

Problemas da comercialização

O levantamento de 1999 apontou para uma pequena demanda da carne de rã, frente a outras carnes tradicionais. O estudo do perfil do consumidor efetivo (brasileiro) indicou que geralmente ele é do sexo masculino, têm idade madura (acima de 25 anos), possui formação universitária e renda mensal superior a U$ 2.000. Um histórico do primeiro consumo desta carne, em aventuras no campo, durante a adolescência, também foi identificado. Apesar da existência da rejeição ou preconceito à carne de rã, pelo sexo feminino, existe expectativa de consumo do produto, considerado “caro”.

Ficou clara a existência de um ciclo vicioso, que se estende da produção até a comercialização: “Produto caro que reprime demanda e reflete na produção”. Por outro lado, a redução de preço exige aumento no volume da produção e ganhos de produtividade.

A crise econômica que se agravou depois da primeira desvalorização do real (janeiro de 1999), parece que deu um golpe nos ranicultores. Não existem dados atualizados, mas provavelmente mais de 50% dos ranários operantes no ano de 1999, encerraram suas atividades. O mercado interno já dá sinais de falta do produto carne de rã, o que dificulta em muito atingir a meta de atuar no mercado externo.

Os recentes avanços tecnológicos

Os pesquisadores, a partir do PRODERan, direcionaram seus trabalhos para atender as prioridades indicadas no programa. Os resultados começam a trazer novas perspectivas para a atividade, algumas das quais merecem destaque:

• Transferência de tecnologia: A Região Nordeste, que possui áreas com potencial hídrico suficiente para atender a atividade, e clima considerado preferencial para a criação de rãs, ganhou um valioso projeto de ranicultura para a formação de técnico nos diversos níveis (técnico, graduação e pós-gradução), no Centro de Formação de Tecnólogos da Universidade Federal da Paraíba (Campus de Bananeiras), sob a coordenação do Prof. Dr. Onofre Mauricio Moura.

• Ganhos de produtividade: Duas Linhagens comerciais de rã-touro encontram-se em fase de desenvolvimento e ainda este ano começam a ser avaliadas nos ranários pelo Laboratório de Aqüicultura da UNESP (Botucatu-SP), sob a coordenação do Prof. Cláudio Ângelo Agostinho. A linhagem monosexo promete contribuir para significativos ganhos de produtividade nos ranários e na redução dos possíveis impactos ambientais promovidos pelas fugas da rã-touro (espécie exótica), nas redondezas das granjas. A sazonalidade na produção pouco a pouco deixará de ser problema, com a adoção da técnica da fertilização artificial recentemente divulgada pelo mesmo pesquisador.

• Equipamentos para a indústria: A carne de rãs mecanicamente desossada (CMSr) representa o primeiro passo para agregar valor ao produto, dando aproveitamento ao dorso (braços e costelas) da rã, para a elaboração de novos produtos (patês, salsichas, hambúrgueres, etc). Uma máquina desossadora acaba de ser desenvolvida pelo Prof. Dr. Onofre Mauricio Moura (patente requerida), que também está desenvolvendo pequenos utensílios especiais para a linha de abate, como tesouras, sugadores, pinças, etc…, que contribuirão para otimizar o processo.

• Novos produtos: A Dra Ângela Furtado, da EMBRAPA Agroindústria de Alimento (RJ), iniciou estudos para desenvolver novos produtos a base da carne de rã, cuja tecnologia deverá ser disponibilizada aos produtores, em breve. Conservas da carne e produtos da CMSr devem compor o leque de opções que possibilitarão agregar valor à atividade. Iniciativas particulares de alguns grupos se direcionam para a elaboração de “pratos prontos”. As receitas são variadas e os estudos estão em fase embrionária, mas prometem boas perspectivas.

• Valor nutricional e terapêutico da carne de rã: A Profa Dra Josefina Bressan, do Departamento de Nutrição e Saúde, da Universidade Federal de Viçosa, desenvolve estudos para a definição do papel da carne de ra relacionados a problemas de glicemia, colesterolemia e manifestações alérgicas. Pesquisas com cobaias já foram iniciadas e o próximo passo será com seres humanos.

• Outras pesquisas: Também se encontram em desenvolvimento estudos sobre as exigências nutricionais da rã-touro; instalações e manejo e gestão do processo produtivo que, entre outros, são temas de pesquisas que se somam às estratégias do PRODERan. Interessados em participar podem contactar o coordenador *.

O esforço do setor produtivo

Bons exemplos de tentativa de integração entre os produtores estão ocorrendo no Brasil, que tradicionalmente exportava rãs vivas, passa agora a exportar a carne. É o caso da parceria entre os produtores de Goiás e Distrito Federal, liderados pelas empresas Ranajax e Rander. A primeira, com o Ranário Fujioka e ranicultores integrados, iniciou recentemente remessas para o Mercado Europeu de carne fresca e congelada. A segunda, além de sua produção, oferece o abatedouro, credenciado pela Inspeção Federal.

No Estado do Rio de Janeiro, a Coopercrama – Cooperativa Regional de Piscicultores e Ranicultores do Vale do Macacu e Adjacências Ltda., está animada com o início das operações da indústria, previsto para este ano. A capacidade de processamento mensal da Coopercrama está estimada em 4 toneladas mensais de carne de rã e 20 toneladas de peixes.