Um pouco do histórico do cultivo de moluscos

As informações dos tópicos abaixo foram extraídas do trabalho “Cultivo de Moluscos em Santa Catarina” de autoria de Jaime Fernando Ferreira, do LMM/UFSC – Laboratório de Moluscos Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina e, Francisco Manoel de Oliveira Neto, da Epagri – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.

O cultivo de moluscos, atualmente realizado por cerca de 1.000 produtores localizados entre Garopaba e São Francisco do Sul, no litoral catarinense, só passou a ser considerado uma atividade econômica no Brasil, a partir de 1990, apesar de ser uma atividade produtiva conhecida no mundo ocidental desde a época do Império Romano. A atividade em Santa Catarina conta hoje com mais de 5.000 empregos diretos e tantos outros indiretos, relacionados à criação de ostras Crassostrea gigas e mexilhões Perna perna, desenvolvida em sistemas de cultivo do tipo espinhel e suspenso fixo.

Ainda nos séculos XV e XVI, o consumo e cultivo de bivalves propiciaram um processo de industrialização, com transporte e comercialização regulares entre diversos pontos da Europa, onde já se havia espalhado em vários países desde o século XII. A implementação dos cultivos de forma comercial tal como a conhecemos hoje, se deu na primeira metade do século XX.

No Brasil, essa é uma atividade com registros literários desde 1934. Porém, os primeiros exemplares da ostra japonesa, Crassostrea gigas no país foram importados em 1974 da Grã-Bretanha, pelo Instituto de Pesquisas da Marinha, de Cabo Frio no Rio de Janeiro. O primeiro projeto comercial de cultivo de ostras foi implantado em Cananéia (SP) pela empresa SOSTRAMAR, no início dos anos 80.

A Universidade Federal de Santa Catarina, através do Departamento de Aqüicultura, iniciou o cultivo de ostras em 1983. Praticamente todas as iniciativas de implantação de cultivo de moluscos no Brasil foram originadas em instituições públicas. Além disso, na maioria delas, não houve real participação das comunidades produtivas envolvidas, ficando a atividade restrita a pesquisas e tentativas de produção em escala experimental.

Em Santa Catarina, ao contrário de outros estados, ao observamos os primeiros trabalhos desenvolvidos com moluscos, é possível verificar a ligação das pesquisas realizadas na UFSC, com a extensão representada pela ACARPESC (atual EPAGRI) com uma participação direta dos pescadores locais. É evidente o direcionamento da pesquisa e transferência tecnológica para o setor produtivo, visando o aumento da produção, que passou a permitir a caracterização do cultivo de moluscos como uma atividade comercial a partir de 1990. A essas instituições, se agregaram a UNIVALI, a UNISUL e a UNIVILLE, assim como empresas, ONGs, associações e cooperativas, permitindo a ampliação do tripé pesquisa-extensão-produção, elevando o Estado de Santa Catarina ao posto de maior produtor de moluscos cultivados do País.

Em Santa Catarina são cultivados moluscos bivalves da família Mitilidae, representada pelo mexilhão nativo Perna perna e da família Ostreidae, representada pela ostra do pacífico (exótica) Crassostrea gigas. Aparecem ainda, tentativas de cultivo de ostras nativas, ostra-do-mangue, representadas pelas Crassostrea rhisophorae e Crassostrea brasiliana. Além disso, existe também um início de produção da vieira nativa Nodipecten nodosus, ainda que de forma experimental, mas com grande potencial.

O litoral catarinense é caracterizado pela presença de diversas baías e enseadas, com baixa profundidade de 3 a 8 metros e pequena declividade próxima da costa. Nesses ambientes, a temperatura varia de 16 a 30 oC e a salinidade de 30 a 36 ‰. São ambientes que apresentam boa qualidade de água em termos de componentes bacterianos, permitindo baixos níveis de contaminação na carne dos moluscos e padrões de metais pesados dentro dos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde.

Os espinhéis (long-lines) e as balsas são os sistemas mais empregados em cultivos comerciais no mundo. De maneira geral são utilizados em locais com profundidades variando de 4 a 40 metros, normalmente abrigados (baías ou enseadas) e com correntes baixas a médias, podendo no entanto, ser utilizados também em mar aberto. De maneira geral se empregam poitas ou âncoras para manter as estruturas presas ao fundo. Requerem maior investimento de implantação e manutenção, porém não apresentam dificuldade de manejo, além de permitirem o cultivo em áreas mais afastadas, com melhor aproveitamento da profundidade.

Devido às características dos ambientes de cultivo, às espécies e, ao padrão artesanal dos produtores, são usados em Santa Catarina o sistema suspenso fixo do tipo “varal”; o sistema flutuante do tipo espinhel (ou long-line) e, sistema flutuante do tipo balsa.

O sistema do tipo “varal” é geralmente praticado em locais rasos (até 4 metros de profundidade) com mar calmo e próximo à costa ou praias com fundo areno-lodoso. Normalmente se utilizam estruturas de bambu ou tubos de PVC preenchidos com concreto. Os varais são construídos com estacas enterradas no fundo, com outras na parte superior, colocadas paralelas à superfície da água, onde são amarradas as cordas ou lanternas de cultivo.

O sistema de espinhéis ou long-lines são confeccionados basicamente, com flutuadores (de plástico, fibra ou poliuretano) com tamanho entre 20 e 200 litros, amarrados em linha com um cabo (cabo-mestre), na superfície do mar, ao qual são penduradas as lanternas, cordas de cultivo ou coletores de semente. Apresentam tamanho variado, mas geralmente não passam de 100 metros, sendo que os cabos-mestres podem ser simples ou duplas amarradas em paralelo, nas extremidades dos flutuadores.

O sistema de balsas varia muito. No Brasil as poucas balsas existentes têm entre 30 e 70 m2. Como sistemas de flutuação são empregados diversos materiais como bombonas plásticas, placas de poliuretano rígido, flutuadores de madeira de compensado naval cobertos com resina, tambores de metal especialmente construídos e revestidos de resina. Em Santa Catarina são geralmente utilizados tambores de 200 a 300 L de plástico.

A extração de sementes a partir de estoques naturais pode levar a sérios prejuízos ambientais e para as comunidades naturais de maneira geral. A extração é ainda empregada, porém é crescente o uso de coletores artificiais de sementes. A captação através da colocação de coletores manufaturados é empregada em diversos países e é a forma mais correta e econômica de se obter sementes. Existe um grande número de coletores e a escolha dependerá do ambiente, da espécie a ser cultivada e, da condição sócio-econômica dos produtores (ver Panorama da AQUICULTURA edição 96).

O LMM/UFSC associado a Epagri tem atuado na produção comercial de larvas e sementes de moluscos. Hoje é o único laboratório no Brasil a produzir regularmente sementes de ostra do Pacífico, atendendo tanto a comunidade catarinense quanto a outros estados brasileiros como São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Piauí, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará.

A produção de mexilhões em Santa Catarina no ano de 2005 foi da ordem de 12.234,1 toneladas, representando um crescimento de 24,8% em relação a 2004. Os municípios que mais contribuíram para este crescimento foram: Palhoça, com um aumento de 1.090 toneladas; Florianópolis, 630,3 toneladas; São José, 338 toneladas e São Francisco do Sul, com aumento de 248 toneladas.

Ao contrário da mitilicultura, a produção de ostras sofreu uma queda de 22,7%, passando das 2.512,7 toneladas registradas em 2004, para 1.941,6 toneladas em 2005. Os municípios que mais contribuíram para este declínio foram Florianópolis, seguido por Governador Celso Ramos e Penha. Os municípios de Florianópolis e Palhoça apresentaram os maiores volumes de produção de ostras em relação aos demais municípios produtores. Juntos eles produziram 90,46% da produção estadual.

A produção de sementes de ostras nos seis primeiros meses de 2006 ultrapassou os 45 milhões de sementes. Até 1997, toda a produção dependia de maturação em ambiente natural e as sementes eram repassadas ao setor produtivo com tamanhos acima de 3 a 4 mm. Atualmente, 90% do processo produtivo se dá através de maturação controlada e induzida em laboratório, o que vem garantir uma excelente produtividade e épocas corretas de produção, sendo mais de 80% da produção entregues ao produtor com tamanhos de 1 a 2 mm.

O cultivo de moluscos é hoje a principal ou a segunda em importância econômica para alguns municípios de Santa Catarina. Isso tem possibilitado a integração entre cultivo, turismo e gastronomia que revitalizou algumas localidades e criou marcos de identificação como “Ostra de Florianópolis”, atualmente aprovada como selo de origem.