Viabilidade econômica da produção comercial de tilápias em tanques de terra

Tema apresentado na forma de palestra junto ao Congresso Internacional de Comercialização de Peixes Cultivados – outubro/02.

Por: Alexsandra Caseiro
Nutron Alimentos Ltda
[email protected]
Fernando Kubitza Acqua &
Imagem Serviços
[email protected] 

As mudanças na conjuntura econômica vêm obrigando muitos piscicultores a reavaliar a continuidade na atividade, em função da drástica redução nos lucros ou mesmo pelos sérios prejuízos amargados nas últimas safras. Diversos aspectos do mercado têm afetado diretamente a produção de peixes cultivados, dentre os quais merecem destaque:

(a) a grande oferta de peixe a um baixo preço:

É notável o aumento na oferta de peixes oriundos da pesca extrativa em grandes reservatórios, bem como de peixes produzidos em sistemas de cultivo que empregam o uso de resíduos animais e diversos subprodutos como alimento. Desse modo, os piscicultores se deparam com a necessidade de competir, no preço, com produtos de custo e qualidade inferiores aos seus. Trata-se de uma competição desleal para com um produtor que investe recursos e tempo à produção de peixes de qualidade superior, com melhores condições sanitárias, além de frescor e sabor superiores.

(b) a exigência por peixes maiores:

Os produtores estão sendo obrigados a se adaptar a essa nova exigência, tanto dos pesque-pagues como das indústrias de beneficiamento, por peixes de maior tamanho. No entanto, o preço de venda não sofreu alteração, o que ocasiona ao produtor uma redução na margem de lucro por quilo, visto o maior custo envolvido na produção de peixes maiores.

(c) a inadimplência:

Aproximadamente 70 a 80% do peixe produzido nos mercados das regiões sudeste, sul e centro-oeste tem como destino os estabelecimentos de pesca recreativa. A característica marcante desse mercado é a venda para intermediários que se encarregam de distribuir os peixes a diversos pesque-pagues. Nos últimos anos, a conjuntura econômica foi pouco favorável a esse mercado dedicado ao lazer, o que contribuiu para uma desaceleração na venda de peixes vivos. O pagamento pelo peixe vivo tem sido feito em prazos longos, de até 60 dias, sendo cada vez mais freqüentes os casos de inadimplência, impondo grandes riscos e prejuízos ao produtor.

Além dos aspectos acima citados, vale lembrar que a desaceleração da economia, bem como o aumento nos preços da ração, de diversos outros insumos e dos bens de consumo diretamente relacionados à produção (energia elétrica, telefonia e combustível) contribuíram grandemente para o aumento dos custos de produção, o qual não foi possível ser repassado ao preço de venda do peixe cultivado. Com isso, muitos produtores tiveram uma considerável redução nas margens de lucro ou mesmo amargaram prejuízos.

Em algumas regiões tradicionalmente produtoras de peixes, muitos piscicultores tardaram a iniciar o acompanhamento da produção e dos custos. Quando deram conta, já haviam perdido muito dinheiro. Com isso, muitos reduziram o ritmo de produção, ou mesmo paralisaram as suas atividades. Em algumas regiões o número de piscicultores foi reduzido em até 60%, como é o caso da região oeste do Paraná. Muitos já vinham desestimulados por problemas na produção, em virtude do uso de densidades de estocagem muito elevadas, da oferta de alimentos de baixa qualidade e da total falta de acompanhamento da qualidade da água. Estes fatores contribuíram para aumentar as perdas de peixes por problemas de manejo e doenças ao longo do cultivo, bem como as perdas de peixes durante e após o transporte vivo, em função da baixa resistência ao manejo dos peixes produzidos. A correção desses problemas básicos poderá contribuir para melhorar os números da atividade.

Diante das dificuldades que o setor tem enfrentado, e com o intuito de encontrar respostas aos freqüentes questionamento dos produtores e técnicos com relação à viabilidade da piscicultura, foram organizados e analisados os resultados de produção de uma piscicultura localizada no Oeste Paulista, que acompanham com maior rigor o desempenho produtivo e os custos em cada ciclo de cultivo. Um resumo das análises realizadas segue apresentado neste artigo.

1. Estrutura de produção

A propriedade selecionada atua na atividade desde 1996 e, até o presente, já investiu R$ 270.000,00 na compra da área destinada à piscicultura e R$ 360.000,00 na implantação da infra-estrutura (construções e equipamentos). Atualmente, se dedica à engorda de tilápia e pacu, sendo que a primeira espécie é o carro chefe da atividade. Trata-se de uma fazenda de produção bem estruturada e que trabalha com a produção de juvenis de 50g em tanques de terra (área = 0,84 ha), engorda de 50 a 600 g em tanques de terra (área = 2,44 ha) e engorda de 50 a 600 g em tanques-rede instalados em 18,27ha de represas dentro da propriedade. Além desta estrutura, a fazenda conta com outra área para a engorda de tilápias em tanques-rede. Maiores detalhes de infra-estrutura disponível para a produção de peixes na referida propriedade estão na Tabela 1.

2. Custos de produção para a safra 2001/2002:

Como o objetivo deste estudo é avaliar a viabilidade econômica da produção de tilápias em tanques de terra, vamos nos ater apenas aos detalhes da produção neste sistema, que representa 11,32% do montante de peixe produzido ao ano na propriedade em questão. Os custos de produção de juvenis de 50g e peixe de 600g em tanques-rede não são apresentados, sendo que o rateio das despesas foi proporcional ao montante de produção.

A produção de tilápia de 600g em tanques de terra tem sido realizada com o uso de aeração suplementar e com renovação de água de até 10% ao dia nos períodos finais do ciclo de cultivo, o que possibilita alcançar biomassa entre 9 e 12 toneladas/ha/ciclo.

Durante a safra 2001/2002, os piscicultores viveram um momento em que a oferta de tilápia passou a ser maior do que a demanda. Diante desta situação, o mercado tornou-se mais seletivo e passou a exigir peixes de maior peso comercial – 600 a 700 g, pagando por este peixe um preço aquém das expectativas do produtor. Neste momento, a comercialização passou a ser o maior entrave enfrentado pelos piscicultores.

Esta situação acarretou o atraso na comercialização (giro) do peixe vivo, obrigou a manutenção dos peixes durante mais tempo do que o necessário nos tanques e forçou a uma estocagem mais alta dos juvenis. Isso comprometeu o desempenho dos peixes e prolongou o tempo de cultivo (Tabela 2). Assim, ao invés de alcançar uma produção de 72 toneladas/ano, considerada factível para a área de tanques disponível, na safra 2001/2002 apenas foram produzidas 55 toneladas. Essa quebra na produção acarretou um aumento no custo do quilo do peixe e, conseqüentemente, uma redução no lucro da safra (Tabela 3).

3. Análise do tempo e da taxa de retorno do capital safra 2001/2002:

Como mencionado anteriormente, a área de engorda de tilápia em viveiros é responsável por 11,32% das despesas e do volume de produção de peixes da fazenda. Utilizando-se o mesmo percentual para considerar gastos com investimento em terra e infra estrutura, é possível chegar ao valor de R$ 30.564,00 para a aquisição da área de 2,44 ha de tanques de terra e de que R$ 40.752,00 gastos em infra-estrutura e equipamentos, totalizando um investimento de R$ 71.316,00 para a área de produção em questão. Estes dados são necessários quando se deseja avaliar o tempo de retorno e a taxa de retorno do capital investido.

Assim sendo, para a avaliação destes parâmetros, o número a ser usado é de R$ 0,244/kg (lucro bruto = R$ 0,189/kg + depreciação = R$ 0,055/kg) para a safra 2001/2002, enquanto que, se a fazenda tivesse trabalhado nas condições ideais de comercialização e produção, o número seria R$ 0,340/kg (lucro bruto = R$ 0,304/kg + depreciação = R$ 0,036/kg). O tempo para o retorno do capital investido é demonstrado no Gráfico 1.

Tabela 2. Comparação entre o tempo de cultivo e a conversão alimentar obtidos na safra 2001/2002 e o que se estima ser possível alcançar para os 2,44 hectares de tanques de terra, mantidas as condições ideais de comercialização da tilápia.
Tabela 2. Comparação entre o tempo de cultivo e a conversão alimentar obtidos na safra 2001/2002 e o que se estima ser possível alcançar para os 2,44 hectares de tanques de terra, mantidas as condições ideais de comercialização da tilápia.

¹ Valores recomendados em função do aumento do peso de comercialização dos peixes.

1.    Valor que já considera todos os custos acumulados na produção do juvenil de 50g.  2.    Taxa de juros sobre o capital investido – 14,5% ao ano (Rentabilidade do Fundo DI de jun/01 a jun/02). 3.    Taxa de juros sobre o capital operacional – 10,5% ao ano (juros de empréstimo de custeio tomado junto ao banco). 4.    Rateio de despesas, com 11,32% do custo total da piscicultura sendo alocado à área de 2,44 ha de tanques de terra usados na engorda de tilápias. 5.    Com o preço médio de venda a R$ 2,10/kg
1. Valor que já considera todos os custos acumulados na produção do juvenil de 50g.
2. Taxa de juros sobre o capital investido – 14,5% ao ano (Rentabilidade do Fundo DI de jun/01 a jun/02).
3. Taxa de juros sobre o capital operacional – 10,5% ao ano (juros de empréstimo de custeio tomado junto ao banco).
4. Rateio de despesas, com 11,32% do custo total da piscicultura sendo alocado à área de 2,44 ha de tanques de terra usados na engorda de tilápias.
5. Com o preço médio de venda a R$ 2,10/kg
Gráfico 1. Análise do tempo de retorno de capital e taxa de retorno de capital para a safra 2001/2002, estocagem utilizada versus estocagem ideal.
Gráfico 1. Análise do tempo de retorno de capital e taxa de retorno de capital para a safra 2001/2002, estocagem utilizada versus estocagem ideal.

Através do Gráfico 1 pode-se observar que o atraso na programação de despesca dos tanques de produção gerou uma redução na lucratividade da ordem de R$ 11.493,00 comparado ao que poderia ser obtido com situação ideal. Isso aumenta o tempo de retorno do capital investido. Tempos que para a condição utilizada na safra 2001/2002 a taxa de retorno de capital foi de 18,81%/ano, número este que poderia ser de 34,32%/ano caso não houvesse atraso na despesca dos tanques.

4. Avaliação dos custos de produção a preço presente:

Uma nova avaliação de custos foi feita tomando-se como referência as condições ideais de produção, porém com os preços de insumos, ração e combustível observados nos períodos em que a cotação do dólar era de US$ = R$ 3,00 e de US$ = R$ 3,60. Para esta análise, considerou-se o preço de venda de R$ 2,30/kg, valor que a propriedade recebe no momento pela tilápia de 600g. Os custos de produção, a depreciação e o lucro antes do imposto de renda são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4. Avaliação dos custos de produção em função dos aumentos nos preços da ração e dos demais insumos utilizados na produção
Tabela 4. Avaliação dos custos de produção em função dos aumentos nos preços da ração e dos demais insumos utilizados na produção

¹ Taxa de juros sobre capital investido usada para cálculo: 22,0%/ano (estimativas para fundos DI em 2003)
² Taxa de juros sobre capital operacional usada: 10,5%/ano (juros de emprestimo de custeio tomado junto a banco)

Vale lembrar que os custos de produção não variam integralmente com a variação na cotação do dólar. Estes dados são utilizados apenas como referência, uma vez que parte dos custos de ração sofre influência da cotação desta moeda, bem como custos de combustível, adubos, medicamentos e alguns outros insumos.

Os referidos valores do dólar foram utilizados pelo fato do mercado financeiro defender a queda da sua cotação para um valor próximo a R$ 3,00. Durante este ano, o valor já havia caído para R$ 3,30. Porém, com as ameaças de guerra dos Estados Unidos contra o Iraque o mercado ficou conturbado e a o dólar voltou a subir, atingindo a faixa de R$ 3,60 a 3,65.

5. Avaliação da taxa e do tempo de retorno de capital a preço presente

Ainda que um lucro bruto de 7,13% não agrade muito ao piscicultor, não é este que deve ser usado para a avaliação da viabilidade da atividade. O melhor parâmetro para fazê-lo é a taxa de retorno do capital e o tempo para o seu retorno.

A título de ilustração, selecionou-se o fundo de investimento DI para estabelecer um comparativo de retorno do capital entre a piscicultura e fundos de investimento. Atualmente, estes fundos são considerados seguros e rentáveis.

Para o período de fevereiro/02 e janeiro/03, os fundos DI apresentaram uma taxa de retorno de capital média de 17,5%. Para o ano de 2003, a previsão de taxa de retorno para este fundo de investimento está para 22%/ano. Vale lembrar que este percentual é bruto e não contempla abatimento de 20% de imposto de renda e o desconto do índice de inflação do ano. As Tabelas 5 e 6 apresentam um comparativo do rendimento anual e da taxa de retorno do capital, contemplando as análises feitas com o dólar a R$ 3,00 e 3,60.

Tabela 5. Comparativo de taxa do retorno de capital e retorno anual entre a produção de peixes a cotação de US$ = R$ 3,00 vs fundos de DI.
Tabela 5. Comparativo de taxa do retorno de capital e retorno anual entre a produção de peixes a cotação de US$ = R$ 3,00 vs fundos de DI.

* Custo já contemplado no preço do peixe.
1. Custo da terra + investimento em infra-estrutura.
2. Capital operacional = (72.000 kg x R$ 1,982) = R$ 142.704,00.
3. Previsão de rendimento do fundo DI para 2003 = 22%/ano.
4. Considera-se o valor médio pelo fato do produtor desembolsar o capital ao longo do ano. Este exemplo contempla que o produtor subsidiaria toda a safra com capital próprio.

Tabela 6. Comparativo de taxa de retorno do capital e retorno anual entre a produção de peixes na cotação de US$ = R$ 3,60 e fundos de investimento.
Tabela 6. Comparativo de taxa de retorno do capital e retorno anual entre a produção de peixes na cotação de US$ = R$ 3,60 e fundos de investimento.

* Custo já contemplado no preço do peixe.
1. Custo da terra + investimento em infra-estrutura.
2. Capital operacional = (72.000 kg x R$ 2,118) = R$ 152.496,00.
3. Previsão de rendimento do fundo DI para 2003= 22%/ano.
4. Considera-se o valor médio pelo fato do produtor desembolsar o capital ao longo do ano. Este exemplo contempla que o produtor subsidiaria toda a safra com capital próprio.
5. Índice de inflação considerado em 2002– IPCA (índice de preços ao consumidor ampliado).

Para 2002, o índice de inflação atingiu a casa dos dois dígitos, com 12,54% ao ano. Se considerarmos estes números, teremos que os fundos de investimento DI na realidade apresentaram uma taxa de retorno de capital de apenas 5,06% ao ano. Este retorno é muito inferior ao que pode ser obtido com a produção de tilápias em viveiros para a propriedade em questão. O índice de inflação não deve ser descontado na avaliação do retorno do capital da produção de peixes, pois as despesas pagas ao longo do ano representam valores presentes já adicionados da inflação e pelo fato de, no custo do quilo do peixe, já ter sido incluídos os juros sobre investimento (22,00% ao ano) e sobre capital operacional (10,5% ao ano).

Investidores classificam que uma atividade é considerada viável economicamente para o setor empresarial quando apresenta retorno de capital em 5 anos, enquanto que um bom número para o setor agrário seria de 10 anos. Na realidade, quem deve avaliar isso é o produtor, mas podemos tomar estes dados como referência para uma avaliação. O comparativo de tempo para retorno de capital a valor presente é apresentado no Gráfico 2.

Gráfico 2. Análise do tempo de retorno de capital a preço presente e comparativo com FUNDO DI (investimento + capital operacional a custo de US).
Gráfico 2. Análise do tempo de retorno de capital a preço presente e comparativo com FUNDO DI (investimento + capital operacional a custo de US).

Os dados de tempo de retorno de capital apontam que a lucratividade obtida pela piscicultura apresenta um retorno do dinheiro investido inferior a 5 anos, enquanto que o retorno do fundo DI para o capital investido e para a média do capital operacional esteve em torno de 9 anos.

Com base nos resultados econômicos do presente estudo, podemos afirmar que a piscicultura, quando adequadamente conduzida e contornados os problemas de comercialização, é uma atividade economicamente viável e mais atrativa do que opções convencionais de investimento. Há, no entanto, que se considerar os riscos da atividade, particularmente em relação à inadimplência de muitos compradores de peixes vivos. Com a expansão da piscicultura na região sudeste já não é mais possível se vislumbrar o pesque-pague como opção de mercado.

Os empreendimentos existentes e futuros deverão superar o desafio de colocar seus produtos diretamente na mesa do consumidor. Para tanto, será imprescindível o beneficiamento do pescado cultivado em produtos que atendam as diversas facções desse mercado. Como a maioria das pisciculturas no país não possui porte que justifiquem investimentos isolados em unidades de beneficiamento e, tampouco, teriam produção suficiente para iniciar uma incursão a este mercado, uma das alternativas seria o estabelecimento de sérias parcerias entre grupos seletos de produtores, visando tanto rachar os investimentos na industrialização, divulgação e distribuição dos produtos, como negociar em conjunto a aquisição dos principais insumos de produção de modo a reduzir os custos de produção.

Muitos frigoríficos e fábricas de ração da indústria do catfish nos Estados Unidos foram incubados dessa forma. A receita tem tudo pra dar certo aqui no Brasil, basta ser profissional e sério o suficiente para honrar os compromissos, ou seja, não é pra qualquer um.