WAS 2009 no México – Um sucesso, apesar dos contratempos

Apesar de muitos contratempos, o WAS 2009, realizado de 25 a 29 de setembro último na cidade de Veracruz, México, foi um sucesso. O surto da gripe A, que abalou fortemente o país no início deste ano, obrigou a Sociedade Mundial de Aquicultura (WAS na sigla em inglês) a mudar a data do evento, anteriormente prevista para maio. A alteração de última hora na agenda dos congressistas e das empresas expositoras trouxe muita preocupação para os organizadores, temerosos com os reflexos negativos decorrentes da mudança. Apesar de tudo, a versão 2009 do maior evento da aquicultura mundial recebeu cerca de 3.200 congressistas vindos de 79 diferentes países. A feira de produtos e serviços, que além do surto da gripe A, também foi afetada pela crise econômica mundial, surpreendeu os visitantes com 189 estandes no Centro de Convenções do World Trade Center da cidade de Veracruz. Entre essas empresas estavam as brasileiras Ferraz Máquinas e Engenharia Ltda., de Ribeirão Preto – SP, fabricante de extrusoras e peletizadoras e a empresa potiguar Rações Nutricil, que tinha à frente seu diretor Ednardo Silva de Araujo. Segundo os organizadores, a taxa de no-show dos palestrantes foi de 10%, portanto, dentro da faixa considerada normal para eventos da WAS.

Centro de Convenções do World Trade Center  da cidade de Veracruz, México (Foto: Ronaldo Cavalli)
Centro de Convenções do World Trade Center  da cidade de Veracruz, México (Foto: Ronaldo Cavalli)

Na segunda-feira, dia 28 de setembro, no horário do almoço, foi realizada uma reunião com os membros da comissão organizadora (Steering Committee) do World Aquaculture 2011, que novamente terá o Brasil como sede. Depois de Salvador em 2003, a cidade de Natal, RN, terá a honra de receber esse importante evento da aquicultura mundial. Nesta reunião estiveram presentes os brasileiros Ricardo Martino (FIPERJ, RJ), Rodrigo Roubach (MPA), Ronaldo O. Cavalli (UFRPE) e Paulo Henrique Nurmberger Nunes (organizador da Fenacam e representante do comitê local de organização do WAS 2011). Além da discussão de vários assuntos pertinentes ao próximo evento, ficou acertado que a próxima reunião do comitê será realizada em Natal, de 19 a 21 de janeiro de 2010.

Rodrigo Roubach foi o único representante do MPA presente no evento de Veracruz. Fez três apresentações orais de trabalhos técnico-científicos, sendo uma delas na sessão “Aquicultura na América Latina e Caribe”. Nessa ocasião, Roubach, que já foi presidente do Capítulo Latino Americano e Caribenho (LACC-WAS), falou sobre a implementação e o monitoramento dos parques aquícolas no Brasil. Em outra apresentação na sessão “Aquicultura Política e Regulamentação”, abordou o planejamento para o desenvolvimento da aquicultura no Brasil. Sua terceira apresentação foi na sessão “Aquicultura Multi-trófica Integrada (IMTA na sigla em inglês”), onde tratou dos resultados de um projeto de pesquisa sobre o re-uso de efluentes domésticos através da produção e utilização de Lemna (plantas aquáticas) na alimentação de tilápias. Nesta mesma sessão, Itamar Rocha, presidente da ABCC, falaria sobre o estado atual da carcinicultura na América Latina. Itamar, porém, não se fez presente por estar se recuperando após acidente rodoviário. Devido à sua ausência, Ronaldo O. Cavalli, professor da UFRPE, Recife, o substituiu e palestrou sobre o estado atual e as possibilidades do cultivo do bijupirá no Brasil.

Segundo Cavalli, além do já tradicional interesse nas palestras sobre cultivo de bijupirá, houve também muitas apresentações sobre o cultivo de Seriola, mais conhecido no Brasil como arabaiana ou olhete. Dentre estas palestras, Sagiv Kolkovski, pesquisador do Department of Fisheries, Austrália, relatou o potencial e os últimos avanços na aquicultura deste peixe. Federico Rothman, da Kona Blue Water Farms, Havaí, anunciou os planos de expansão das operações de sua empresa, que ainda este ano está implantando o cultivo de Seriola rivoliana no México. Muitos acreditam que, junto com o bijupirá, as espécies de Seriola venham a ser as novas vedetes da piscicultura marinha mundial.

Seriola lalandi  (Foto do Department of Fisheries, Western Australia)
Seriola lalandi  (Foto do Department of Fisheries, Western Australia)

Na segunda-feira, dia 28 de setembro, no horário do almoço, foi realizada uma reunião com os membros da comissão organizadora (Steering Committee) do World Aquaculture 2011, que novamente terá o Brasil como sede. Depois de Salvador em 2003, a cidade de Natal, RN, terá a honra de receber esse importante evento da aquicultura mundial. Nesta reunião estiveram presentes os brasileiros Ricardo Martino (FIPERJ, RJ), Rodrigo Roubach (MPA), Ronaldo O. Cavalli (UFRPE) e Paulo Henrique Nurmberger Nunes (organizador da Fenacam e representante do comitê local de organização do WAS 2011). Além da discussão de vários assuntos pertinentes ao próximo evento, ficou acertado que a próxima reunião do comitê será realizada em Natal, de 19 a 21 de janeiro de 2010.

Rodrigo Roubach foi o único representante do MPA presente no evento de Veracruz. Fez três apresentações orais de trabalhos técnico-científicos, sendo uma delas na sessão “Aquicultura na América Latina e Caribe”. Nessa ocasião, Roubach, que já foi presidente do Capítulo Latino Americano e Caribenho (LACC-WAS), falou sobre a implementação e o monitoramento dos parques aquícolas no Brasil. Em outra apresentação na sessão “Aquicultura Política e Regulamentação”, abordou o planejamento para o desenvolvimento da aquicultura no Brasil. Sua terceira apresentação foi na sessão “Aquicultura Multi-trófica Integrada (IMTA na sigla em inglês”), onde tratou dos resultados de um projeto de pesquisa sobre o re-uso de efluentes domésticos através da produção e utilização de Lemna (plantas aquáticas) na alimentação de tilápias. Nesta mesma sessão, Itamar Rocha, presidente da ABCC, falaria sobre o estado atual da carcinicultura na América Latina. Itamar, porém, não se fez presente por estar se recuperando após acidente rodoviário. Devido à sua ausência, Ronaldo O. Cavalli, professor da UFRPE, Recife, o substituiu e palestrou sobre o estado atual e as possibilidades do cultivo do bijupirá no Brasil.

Segundo Cavalli, além do já tradicional interesse nas palestras sobre cultivo de bijupirá, houve também muitas apresentações sobre o cultivo de Seriola, mais conhecido no Brasil como arabaiana ou olhete. Dentre estas palestras, Sagiv Kolkovski, pesquisador do Department of Fisheries, Austrália, relatou o potencial e os últimos avanços na aquicultura deste peixe. Federico Rothman, da Kona Blue Water Farms, Havaí, anunciou os planos de expansão das operações de sua empresa, que ainda este ano está implantando o cultivo de Seriola rivoliana no México. Muitos acreditam que, junto com o bijupirá, as espécies de Seriola venham a ser as novas vedetes da piscicultura marinha mundial.

A sessão “Aquicultura para a pobreza rural: o papel das agências de desenvolvimento”, segundo Rodrigo Roubach, mereceu destaque pelas boas apresentações e discussões sobre o papel das agências internacionais no fomento da aquicultura como forma de prover oportunidades às populações de baixa renda, ou em situação crítica de sobrevivência. As experiências já acumuladas em países do continente africano e na Índia, mostram que, em alguns casos bem sucedidos, os trabalhos de extensão e o aprendizado da atividade (piscicultura em pequena escala ou de subsistência) são replicados mesmo quando não existe o apoio formal das agências de extensão ou financiamento.

O desenvolvimento da tecnologia de produção de polvo Octopus maya foi o tema da apresentação do Dr. Carlos Rosas, da UNAM, unidade de Sisal, México. A produção de juvenis desta espécie em cativeiro já está praticamente dominada pela equipe do Dr. Rosas, que chegou a desenvolver um sistema simples e prático para a incubação e manejo e, das desovas deste polvo, inclusive com solicitação de patente para o mesmo. O gargalo para se alcançar o cultivo comercial dessa e das demais espécies de polvo continua sendo a alimentação. Apesar dos esforços em encontrar alternativas, a engorda ainda depende exclusivamente do oferecimento de caranguejos ou siris, já que os resultados com rações ainda não são nada encorajadores.

Polvo Octopus maya

Polvo Octopus mayaPaulo César Falanghe Carneiro, da Embrapa Tabuleiros Costeiros, aproveitou o evento para fazer visitas técnicas a duas fazendas de cultivo de tilápia e se reunir com o líder do projeto para estabelecimento do Centro Nacional de Recursos Genéticos do México (CNRG), Dr. Jose Fernando De La Torre Sanchez. O CNRG tem como objetivo conservar recursos genéticos de organismos animais, vegetais e de microrganismos em bancos de germoplasma, visando dar suporte a programas de melhoramento e implementando ações de conservação desse patrimônio natural. No que se refere a aquicultura, o enfoque principal são as espécies nativas, principalmente as de água salgada. Segundo Paulo Carneiro, a criação do centro partiu de uma demanda direta do presidente da república, o que demonstra a preocupação do México com seus recursos genéticos. O governo destinou verbas para a construção da estrutura física capaz de reunir especialistas em torno desse patrimônio nacional, sob ponto de vista estratégico, econômico e de segurança alimentar. O México segue as atuais recomendações da FAO e inclui as espécies aquáticas no rol dos recursos genéticos a serem preservados.

A sessão “Aquicultura Ornamental” foi a maior já realizada na história dos eventos da WAS, tendo acontecido nos dias 26 e 27 de setembro. Felipe Ribeiro, professor da Universidade Federal Rural do Semi-árido – UFERSA, Anita Rademaker Valença, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Marcelo Shei, doutorando da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), foram os brasileiros que apresentaram trabalhos na sessão, que também contou com a presença de diversos pesquisadores de destaque no mundo, entre eles Nuno Simões (UNAM, México), Ricardo Calado (Universidade de Aveiro, Portugal) e Andrew Rhyne (Roger Williams University, EUA). O professor Simões, principal articulador e responsável pelo sucesso da sessão de ornamentais, está à frente do Programa de Investigaciones en Ecología & Cultivo de Especies Marinas de Ornato (www.piecemo.org) desenvolvido na Universidad Nacional Autónoma de México localizada na cidade de Sisal em Yucatán, México.

Anita Rademaker Valença (UFSC) fez a apresentação oral do trabalho “Crescimento e respostas de comportamento em fêmeas adultas de Betta splendens tratadas com solução de 17 α-metiltestosterona”, de sua autoria com Fernando Jun-ho Peixoto Kim, Athiê Jorge Guerra Santos e George Nilson Mendes. Na sessão de pôster esses mesmos autores apresentaram o trabalho “Masculinização de Betta splendens por meio de imersão em solução de 17 α-metiltestosterona”.

No primeiro dia da sessão de ornamentais foram apresentados trabalhos exclusivamente da área de marinhos, com predominância de peixes e do cultivo de copépodos para alimentação das diminutas larvas de peixes marinhos ornamentais. Foi muito discutida a dificuldade para reproduzir certas espécies de interesse comercial pelo fato das larvas não aceitarem rotíferos. A alternativa seria os copépodos, e muito esforço tem sido feito para desenvolver tecnologias de cultivo desses microcrustáceos, que garantam um suprimento contínuo. Segundo Anita R. Valença, o destaque desse tema foi a apresentação do trabalho: “Desenvolvimento de uma tecnologia de larvicultura baseada em copépodos, para peixes marinhos com larvas extremamente pequenas” (Development of “copepod-based hatchery technology” for marine fishes with extremely small larvae), de Charles Laidley, Christina Bradley, Chatham Callan, Eric Martinson, Michael Kline.

Outro trabalho que chamou muita atenção foi o do grupo de Ike Olivotto e Oliana Carnevali (Itália) que vem se destacando pelo grande número de artigos publicados com peixes ornamentais marinhos. Olivotto fez um panorama da piscicultura desses animais, destacando o que já foi feito e o que ainda precisa ser realizado. Entre estas lacunas a serem preenchidas foi dado enfoque aos aspectos nutricionais dos peixes ornamentais marinhos, e não por acaso, um dos pesquisadores deste grupo, Mateo Alessandro Avella, apresentou os resultados de seu trabalho de doutorado, em que pesquisou o papel dos probióticos na alimentação de peixe palhaço, intitulado “Probiótico na alimentação do peixe palhaço: melhorando o bem-estar, crescimento e desenvolvimento”.

Do Brasil, no primeiro dia da sessão de ornamentais, o único trabalho apresentado foi o de Marcelo Shei, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sobre a reprodução natural, desenvolvimento embrionário e larvicultura do néon goby Elacatinus figaro. O Elacatinus figaro é uma espécie nativa do litoral brasileiro e está ameaçada de extinção devido à sobrepesca. No segundo dia a predominância de trabalhos apresentados também foi da área de marinhos. Dos 15 apresentados apenas três eram de água doce, sendo dois do Brasil e um do México.

Felipe Ribeiro (UFERSA) fez duas apresentações orais. O primeiro trabalho foi “Criando cavalos-marinhos em tanque-rede”, fruto de um estudo desenvolvido na PRIMAR, a primeira fazenda de aquicultura orgânica do Brasil, localizada no RN. Neste estudo se utilizou tecnologia inovadora para produção de cavalos-marinhos (ver edição 113 da Panorama da AQÜICULTURA), o que foi amplamente saudado e discutido pelos presentes como um sistema inovador para a produção de juvenis desses animais. O segundo trabalho foi “O comércio brasileiro de peixes ornamentais”, que tratou da situação atual das importações e exportações de peixes ornamentais no Brasil, abordando também a produção e mercado interno (ver edições 110 e 112 da Panorama da AQÜICULTURA). Durante o WAS 2009, Felipe Ribeiro também representou a UFERSA em uma reunião realizada entre pesquisadores de universidades e a iniciativa privada do México, EUA, França, Itália, Espanha e Portugal, ocasião em que se discutiu o desenvolvimento de um grande projeto, a ser financiado pela União Européia (EU), na área de aquicultura ornamental, cujo valor pode chegar a três milhões de euros. Entre os temas abordados nesse encontro destacam-se a pesca sustentável de organismos ornamentais; aspectos sanitários no comércio e os riscos para introdução de doenças; rastreabilidade e certificação na produção e comércio de ornamentais e, transferência de tecnologia para produção de espécies ornamentais, especialmente as ameaçadas. A UE tem uma fonte de financiamento de grandes projetos que obrigatoriamente devem envolver pelo menos três países europeus, associados a um ou mais países em desenvolvimento. Foi grande o interesse dos professores, pesquisadores e membros do setor produtivo em participar dessa possível fonte de financiamento.

Uma das sessões mais concorridas foi a de “Sistemas de Bioflocos”. Para falar sobre ela, publicamos a seguir as impressões de Maurício Emerenciano, Wilson Wasielesky, especialistas na área, que participaram da sessão e apresentaram trabalhos.