XIII Fenacam foca nos desafios da carcinicultura brasileira frente a presença da mancha branca

Tecnologia, mercado atual, oportunidades e perspectivas da aquicultura nacional pautam o maior evento da aquicultura na América Latina

A última Fenacam aconteceu de 21 a 24 de novembro no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. Esta foi a 13º versão do principal evento da aquicultura brasileira, também considerado o mais importante evento da carcinicultura da América Latina, e teve como tema principal “Ciência e indústria unindo forças para atender à crescente demanda de produtos aquícolas”. O evento ficará marcado por ter sido realizado em meio a maior crise da história da aquicultura da Região Nordeste. De um lado a piscicultura sofrendo as consequências da grave crise hídrica que secou reservatórios, causando grandes mortalidades, atingindo em cheio a florescente produção cearense de tilápia, uma das mais produtivas do país. De outro, os carcinicultores afetados com a rápida disseminação do vírus da mancha branca, que reduziu de forma significativa a produtividade dos cultivos em vários estados. Em resposta a esses desafios, a comissão organizadora do evento pautou sua programação em conhecimentos específicos voltados para esclarecer e ajudar técnicos e carcinicultores nas importantes tomadas de decisão diante do vírus. Entre os palestrantes, estavam presentes profissionais de vários países que sabem como conviver não só com a Mancha Branca, mas também com a EMS (Síndrome da Mortalidade Precoce) e tantos outros vírus.


Sobre a Mancha Branca, o presidente da ABCC, Itamar de Paiva Rocha, em seu pronunciamento na cerimônia de abertura do evento, apontou uma única saída para superar esse grave problema: um sistemático controle de biossegurança e a adoção das boas práticas de manejo. Itamar lembrou que isso depende única e exclusivamente dos próprios produtores. “Para sobreviver à mancha branca, há apenas um caminho a ser priorizado e executado, que parte de uma mudança do paradigma. O produtor, em vez de querer vencê-la, deve partir para uma abordagem holística, aprendendo a evita-la, e também a conviver com ela”, disse.

 

Hideyoshi Segovia Uno Spring Genetics
Hideyoshi Segovia Uno Spring Genetics

Com a presença de um grande número de produtores, algumas empresas aproveitaram para promover seus próprios seminários e lançar produtos. O FishVet Group e a Spring Genetics, reuniu produtores em um seminário onde apresentou o portfólio de produtos e serviços que está oferendo aos produtores brasileiros na área de sanidade e alevinos geneticamente melhorados. Hideyoshi Segovia Uno, gerente comercial e operacional da Spring Genetics veio especialmente de Miami para mostrar as instalações e como é feito o trabalho de melhoramento com as tilápias.

Evento paralelo na Fenacam, foi realizado o 3º Fórum de Aquicultura Alltech
Evento paralelo na Fenacam, foi realizado o 3º Fórum de Aquicultura Alltech

Também foi realizado o 3º Fórum de Aquicultura Alltech, com foco no manejo nutricional e na inclusão de aditivos que contribuem para eficiência e qualidade dos pescados. Convidado como palestrante, Fernando Kubitza, da AquaImagem, reafirmou a necessidade de se reavaliar as exigências nutricionais e o manejo alimentar nas fases avançadas de engorda das principais espécies de peixes cultivadas no país. Fernando destacou a importância de se avaliar e desenvolver aditivos que possam melhorar o desempenho e a saúde dos animais, melhorando também as qualidades sensoriais, microbiológicas e nutricionais, que vão contribuir na melhoria dos produtos ofertados às pessoas. Mariana Midori Nagata, gerente de Aquicultura da Alltech do Brasil, destacou que o uso contínuo de soluções a base de leveduras adicionadas à dieta dos peixes auxilia no equilíbrio da microbiota intestinal, e favorece o desenvolvimento das bactérias benéficas, que contribuem para o desenvolvimento dos animais e do produto final. A Alltech aproveitou o público da XIII Fenacam para lançar novos produtos da linha Aquate que visam oferecer benefícios específicos para peixes e camarões em diversos desafios.

Outro evento concorrido foi o lançamento no Brasil da marca Skretting, empresa líder mundial na produção e fornecimento de alimentos para peixes e camarões, integrante do grupo Nutreco. Estiveram presentes 280 convidados, entre parceiros, criadores de camarão, presidentes de associações e imprensa. A XIII Fenacam foi o local escolhido para o lançamento por ser realizada no estado que é considerado um dos principais produtores de camarão do País e sede da fábrica da Skretting do Nordeste. “É uma marca reconhecida em todo o mundo por sua produção de alimentos de alta qualidade para camarões de cultivo, sendo a única empresa que oferece um portfólio completo para os produtores do setor, desde reprodutores, larvicultura até a fase adulta, chegando à mesa do consumidor”, afirma o diretor de produtos em Aquicultura da Skretting Brasil, Marcelo Toledo. O Technical Support Manager da Skretting, Aedrian Ortiz Johnsons, apresentou aos convidados os produtos Vitalis 2.5, considerado um alimento inovador para reprodutores de camarão, e o PL, alimento de alta qualidade para larvas e pós-larvas de camarão. Na sequência, Marcelo Toledo explanou sobre o Optiline, a dieta de crescimento premium da marca, e já adiantou que em março de 2017, o portfólio da Skretting trará novidades e passará a oferecer uma dieta chamada “Lórica” – nome baseado na armadura utilizada pelos romanos – que já está em uso na Ásia e combate a ação de vírus e bactérias.

Lançamento da marca Skretting no Brasil, reuniu toda equipe durante a Fenacam. No detalhe, Marcelo Toledo diretor de produtos em Aquicultura da Skretting Brasil
Lançamento da marca Skretting no Brasil, reuniu toda equipe durante a Fenacam. No detalhe, Marcelo Toledo diretor de produtos em Aquicultura da Skretting Brasil

Das 42 palestras apresentadas na Fenacam, 24 foram proferidas por brasileiros, e 18 foram ministradas por palestrantes internacionais, representando 12 países que se destacam no cultivo, produção, exportação e importação de camarão marinho e peixes cultivados. Nas sessões técnicas foram 67 apresentações orais além de 107 trabalhos apresentados em forma de pôsteres.

O Seminário Internacional de Carcinicultura foi aberto com uma palestra do Léo Oliveira, da AlfaKit, falando da importância do balanço iônico. Na prática são proporções de determinados cátions e ânions, expressos em Mg/l, que devem ser mantidas para que os camarões se desenvolvam de forma saudável. Léo Oliveira descreveu o manejo, desde a coleta até as análises da água e solo, para que seja possível detectar o que está fora da conformidade e assim interferir, adicionando os produtos adequados e na proporção correta para retomar o equilíbrio.

Uma palestra muito esperada foi a de Aedrian Ortiz Johnson, da Trouw Nutrition, cujo título foi “Eliminando pós-larvas como vetores de doença, especificamente do vírus da Mancha Branca (WSSV)”. Aedrian Johnson caracterizou amplamente o vírus, falou das suas características morfológicas, dos seus hospedeiros, da forma como ele se dissemina, e a sua resistência em diferentes meios e hospedeiros. E focou nas diferentes formas de eliminar o vírus utilizando diversos tratamentos, inclusive o térmico. Sobre isso apresentou um estudo realizado pela Walailak University, na Tailândia que comprova a eliminação do WSSV em PLs mantidas a 32(+1)ºC por sete dias. Esse manejo pode ser feito em berçários fechados, do tipo estufa, onde é fácil manter essa temperatura. Aedrian mostrou também que essa descoberta faz parte de um manejo estratégico em diversos países onde, além de se obter PLs totalmente livres de vírus, ainda permite explorar as vantagens de povoar os viveiros de engorda com PLs maiores e mais fortes.

David Kawahigashi na Fenacam 2016
David Kawahigashi na Fenacam 2016

Outro palestrante muito festejado e aguardado pelos produtores brasileiros foi David Kawahigashi, da empresa Vannamei 101. David iniciou comparando o manejo praticado em diversos países, e concluiu que quase todos estão produzindo menos do que produziam. O México hoje produz menos por conta do víbrio, da EMS e do WSSV; o Brasil por conta do WSSV; a China afetada pela EMS e EHP; a Indonésia pela EHP; a Índia pela EHP, o Vietnã pela EMS e EHP. Já o Equador se mantém estável porque produz de forma extensiva e faz policultivos, mas convive com víbrio nas larviculturas. O único país onde a produção segue crescendo em meio a tantos vírus é a Tailândia, que se destaca graças a adoção de sistemas de cultivo inovadores e por usar dos benefícios do melhoramento genético. Os sistemas tailandeses apresentados por David se baseiam na premissa que deve haver um rigoroso controle dos víbrios presentes. Hoje se sabe que a concentração de víbrios no estômago dos camarões acima de 105, provoca a produção de toxina que danifica o hepatopâncreas e provoca mortalidade. Da mesma forma, no ambiente, concentrações acima de 102 deterioram o fundo do viveiro, provocam produção de toxina, resultando em mortalidade. Portanto, hoje, os víbrios são vistos como totalmente indesejáveis e, razão pela qual estão no foco da atenção dos produtores tailandeses. Segundo David, essa deveria ser também a preocupação de produtores brasileiros.

Na Tailândia o controle da EMS também passa pelo formato dos viveiros, que em geral são quadrados, com o fundo coberto com liner e com dreno central. Além disso, a água passa por um severo controle, com remoção de sólidos, uso de tilápias e telas de sombreamento para reduzir a produção de cianofíceas. Segundo David Kawahigashi, depois de todo sistema implantado, as três principais prioridades são: 1 – Manter os fundos dos viveiros limpos; 2 – Limpar os fundos dos viveiros; e, 3 – Ter sempre a certeza que os fundos dos viveiros estão limpos. O dreno central é fundamental e por ele devem sair as partículas de bioflocos sedimentadas, alga mortas, restos de resíduos orgânicos, carapaças e ração não ingerida. O nível de bioflocos deve ser sempre menor que 2cm no Cone Inhoff. Essa enorme preocupação na eliminação dos excessos tem uma única finalidade: remover substratos para a colonização de víbrio.

Reduzir drasticamente a matéria orgânica e utilizar PLs que passaram por estufas a 32ºC por pelo menos 7 dias para exterminar o WSSV presente nas PLs, não é apenas uma estratégia utilizada em sistemas intensivos, com uso de liners, como descrito por David na Tailândia. Carlos Ching, da Vitapro, falou do manejo dos cultivos em viveiros escavados no Equador e no Peru, localizados em áreas com grande incidência da Mancha Branca. A sequência descrita é a mesma: tratamento térmico em raceways, mantendo a temperatura a 32ºC durante 24 horas por 7 dias; renovação de água zero após o enchimento dos viveiros antes do povoamento das PLs, por um mínimo de 5 dias, manter a alcalinidade de 150 a 200 ppm durante o período mais frio do ano; e, utilização de rações iniciais para a imuno estimulação de camarão durante o primeiro mês de cultivo. Esse manejo no Equador eleva as taxas de sobrevivência a até 75%, enquanto as fazendas que não fazem isso têm sobrevivência média de 45%. E no Peru, em áreas de alta incidência de WSSV, este manejo permite sobrevivências de até 80%, contra 40% na ausência do manejo recomendado.

Fabrício Vanoni, da Epicore (representada no Brasil pela Nexco), falou da necessidade dos produtores, pincipalmente dos países exportadores, de estabilizar a produção diante das doenças (principalmente EMS e WSSV) e ainda recuperar a rentabilidade diante da queda mundial dos preços dos camarões. Segundo Vanoni, a evolução da tecnologia tem acontecido nos primeiros dias de cultivo. E a chave para esta recuperação baseia-se no encurtamento, tanto quanto possível, da exposição dos animais a sistemas abertos que podem facilmente acumular carga orgânica, um caldo de cultura para agentes patogênicos letais para o animal em cativeiro. O foco é o aperfeiçoamento dos parâmetros de biossegurança das unidades produtoras de PLs e a intensificação dos cuidados dos camarões nos primeiros dias de cultivo com especial atenção na melhoria da alimentação durante esse período. Comentou o manejo utilizado no Equador, com a manutenção de densidades baixas e redução na carga orgânica dos viveiros. Nos raceways as sobrevivências finais são de 85% e 90%, entre 35 e 60 dias de cultivo, com peso médio de 4 gramas. Quanto maior os animais entram nos viveiros, que em alguns casos podem chegar a 10 gramas, menor a carga orgânica acumulada no cultivo, o que permite produtores alcançarem pesos finais de 28 a 30 gramas, com produtividade de 1.500 kg/ha em até 70 dias de cultivo.

Nem tudo que se faz em outros países é bom para o Brasil. Mas as palestras da Fenacam mostraram que há um padrão, tanto para sistemas sofisticados quanto para os mais extensivos, que é seguido por todos, tanto na Ásia quanto nos países da América Latina. São manejos razoavelmente simples que pode também ser seguidos pelos carcinicultores brasileiros diante do WSSV.

Na feira de produtos e serviços foi muito fácil perceber que as empresas que atendem ao setor estão preparadas para dar o suporte necessário às mudanças que a carcinicultura precisa. Tecnologia de aeração, sistemas fechados para manutenção de Pls, dietas imunoestimulantes, probióticos, e muitos outros produtos, já nas nossas prateleiras, para dar suporte rumo à estabilização e retomada do crescimento da indústria. Quem foi a XIII Fenacam e se debruçou sobre os conhecimentos oferecidos, já pode arregaçar as mangas para dar um rumo, em meio aos estragos que o WSSV tem feito nos viveiros do Nordeste.