XIV FENACAM – Feira nacional do camarão

Por: Jomar Carvalho Filho
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Editor da Revista Panorama da Aqüicultura

Os ares de Natal sempre combinaram muito bem com a Fenacam. A cidade acolheu o evento desde a sua criação em 2004, e por 10 anos recebeu com generosidade os congressistas que ajudaram a consolidar a Fenacam como o maior evento técnico-científico e empresarial da aquicultura brasileira. Em 15 de novembro último, depois de três anos seguidos em Fortaleza, a Fenacam retornou ao Centro de Convenções de Natal, com sua vista maravilhosa para o mar potiguar, e sua localização privilegiada, ao lado de dezenas de hotéis e restaurantes da orla da Ponta Negra.


A cerimônia de abertura da 14ª Fenacam reuniu o maior público já visto em todas as edições anteriores, um prenúncio do que estava por acontecer.  Para um auditório repleto, o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão, Itamar Rocha, deu as tradicionais boas vindas e fez um relato da situação atual do abastecimento de pescado no Brasil e no mundo. Falou do fenômeno que é a China, líder disparado na produção de pescado, com 17.591.300 t vindas do extrativismo e 47.611.840 t vindas da aquicultura! Ainda assim, para satisfazer a sua demanda interna, a China também se tornou o terceiro maior importador de pescado, perdendo apenas para o Japão e EUA. No caso específico do camarão, a China produz entre pesca e aquicultura, 3,18 milhões t e ainda assim é o segundo maior importador de camarão do mundo, atrás apenas dos EUA. Portanto, disse Itamar, apesar desses números fabulosos, o pescado que vai suprir as necessidades mundiais não virá da China. E garantiu que esse protagonismo poderia perfeitamente caber ao Brasil, não fossem as dificuldades que o setor produtivo encontra para realizar a enorme vocação que temos.

Para demonstrar os equívocos da política pesqueira brasileira, o presidente da ABCC comparou o desempenho do país quando se trata do comércio internacional de proteína animal. No mercado mundial de carne bovina e aves, um negócio de US$ 46,4 bilhões, o Brasil detém 30,8% desse total. Já no mercado mundial de pescado, um negócio de US$ 146 bilhões, três vezes maior que o das demais carnes, o Brasil participa com míseros 0,17%, um percentual vergonhoso se considerarmos o extraordinário potencial aquícola brasileiro. Para Itamar não é fácil aceitar que o Brasil, detentor de excepcionais recursos naturais, com vantagens logísticas e climáticas comparativamente bem superiores a de qualquer outro país, se apresente de forma tão desfavorável, num setor que deveria ser líder mundial.

No que se refere especificamente aos camarões, os crustáceos cultivados e capturados mundialmente somam 14 milhões de toneladas, avaliadas em US$ 56 bilhões. Neste cenário a vedete é o camarão marinho cultivado em áreas tropicais e subtropicais, cuja performance produtiva é de tal ordem que, segundo a FAO (2017), de cada quilo de camarão consumido no mundo, 600 gramas (60%) são oriundas de fazendas de cultivo.

Sobre a batalha que a ABCC vem travando para barrar a importação de camarão do Equador, Itamar não economizou críticas ao MAPA, suposto guardião da sanidade aquícola brasileira. O presidente da ABCC denunciou que, sem o amparo de uma Análise de Risco de Importação, o ministério autorizou o Equador, país que possui 13 doenças virais e bacterianas, incluindo a EMS, das quais 10 não ocorrem na carcinicultura brasileira, a exportar camarão cultivado para o Brasil. E o fato hilário é que o Brasil, contando com apenas uma doença não existente no Equador, a IMNV, está proibido de exportar camarão para lá.

A 14ª Fenacam contou com um total de 1.472 congressistas, além de um público de 3.670 visitantes que circularam pelos estandes da Feira Internacional de Produtos e Serviços para Aquicultura, perfazendo um total de 5.142 participantes.

Das 58 palestras apresentadas nos dois simpósios – Internacional de Carcinicultura e Internacional de Aquicultura, 36 delas foram proferidas por especialistas brasileiros e 22 ministradas por especialistas estrangeiros, representando 13 países. As palestras contaram com a ajuda de tradução simultânea em inglês, espanhol e português.

Nas Sessões Técnicas, foram apresentados 249 trabalhos técnicos-científicos, sendo 62 na forma oral, precedidos de  Palestras Magnas, e 187 trabalhos foram apresentados na forma de pôsteres. Na Sessão Especial da Rede de Carcinicultura – Recarcina, realizada no dia 16 de novembro, foram apresentadas 20 mini palestras envolvendo sete temas de interesse do setor.

No primeiro dia do Simpósio de Carcinicultura foram apresentados os avanços na área de maturação, larvicultura e nutrição, com destaque para os avanços recentes na área de genética. A aplicação de seleção genômica, assistida por marcadores genéticos (MAS) foi apresentada por Tiago Hori, da Center for Aquaculture Technologies (Canadá), como forma de duplicar o ganho genético por geração, uma estratégia utilizada, entre outras, para reduzir custos. O brasileiro Oscar Hennig, da Benchmark Breeding and Genetics, falou dos métodos para a obtenção de animais com altos níveis de resistência a patógenos (SPR).

Segundo o biólogo, as estratégias atuais para o manejo de doenças enfatizam a exclusão e a erradicação, com protocolos rigorosos de quarentena e importação. E são estratégias que até hoje não impediram epidemias. As doenças seguem sendo introduzidas por importações ilegais, alimentos frescos ou erros de manejo da água. Ainda segundo Hennig, o setor continuará a ser repetidamente exposto a novas epidemias enquanto depender de reprodutores mal adaptados às condições locais. A Benchmark Breeding and Genetics, solidificou sua presença na aquicultura mundial ao adquirir a Akvasforsk Genetics e as empresas de melhoramento SalmoBreed and Stofnfiskur (salmão) e Spring Genetics (tilápia).

Outro brasileiro, Luis “Lugu” Farias, também abordou a temática da produção de matrizes e pós-larvas resistentes. Há muitos anos trabalhando em países da América Central, Lugu disse que atualmente são poucas as linhas genéticas com origens em um trabalho com acompanhamento de pedigree, consanguinidade e cruzamentos programados em função da diversidade e desempenho, o que sempre põe em risco a estabilidade da indústria. Porém, garantiu que não existem ainda linhas genéticas que garantam um resultado estável e consistente através dos anos.

O também brasileiro Leandro Castro, da Zeigler, falou dos sistemas fechados biosseguros com mínimo de troca de água e do quanto são sensíveis em função da intensificação da biomassa e da necessidade de maior conhecimento, no que se refere ao desenho do sistema e do manejo diário. Nesse contexto, Leandro ressaltou a importância do manejo alimentar onde o produtor deve repetir diariamente o mantra “as rações direcionam o sistema”.

Fabricio Vanoni, da Epicore, falou da evolução do manejo. O objetivo perseguido é reduzir o maior tempo possível a exposição dos animais aos sistemas abertos, em que a carga orgânica pode ser aumentada com mais facilidade, permitindo uma multiplicação dos agentes patogênicos mortais para os animais. Vanoni mostrou a experiência equatoriana e as alternativas de sistemas de fases: pré-berçários, raceways e nodrizas. Segundo Vanoni, tanto em pré-berçários como em raceways se tem obtido sobrevivência final de até 90% entre 35 e 60 dias, com peso médio de 4 gramas. E no sistema de nodrizas, com menos manuseio, se consegue transferir animais acima de 10 gramas para alcançar tamanhos de 28-30 gramas, 1.500 kg/ha, em 70 dias a partir da transferência, com conversão alimentar de 0,9 a 1,2.

Nos dias que se seguiram, a biossegurança e a prevenção de doenças marcaram o Simpósio de Carcinicultura. Marcelo Borba, da Phileo, falou do manejo preventivo para o controle de bactérias e víbrio, apresentando casos de sucesso no Brasil e em outros países. Daniel Lanza da UFRN, falou dos riscos de importação de camarão, não apenas para a carcinicultura, mas também para os ecossistemas do país. E Pedro Martins, da UFERSA, fez uma ampla explanação do Programa de Saúde nas Fazendas de Camarão – PSF Camarão, que gerencia a saúde da carcinicultura de pequeno porte no Rio Grande do Norte e no Ceará.

Fernando Garcia, da Epicore, também fez um balanço das doenças emergentes na carcinicultura, se concentrando na já bem conhecida EMS/AHPND, por ser a que tem maior impacto na Ásia e México.  Mas a novidade é a Microsporidiose Hepetopancreática – HPM, doença causada pelo microsporídeo Enterocytozoon hepatopenaei, um microsporídeo, parasita intracelular. Sua presença não está associada a eventos de mortalidade, mas os viveiros infectados têm o crescimento severamente afetado, causando grandes perdas econômicas. Garcia também falou da Síndrome das Fezes Brancas e também da mais recente ameaça que já afeta a carcinicultira na Índia, chamada Running Mortality Sindrome, causada por um agente ainda desconhecido, que aparece nos períodos mais quentes.

A Feira Internacional de Produtos e Serviços para a Aquicultura foi a grande vedete da Fenacam 2017. Dela participaram 78 empresas nacionais e internacionais e 12 instituições públicas, que ocuparam uma área de 4.200m². A cada edição do evento percebe-se um aumento na diversificação dos produtos oferecidos. Neste ano, além das empresas que comercializam os insumos mais tradicionais, como alimentos, pós-larvas, alevinos, aeradores, caixas de transporte e redes, foi possível perceber uma oferta maior de probióticos, suplementos, estufas e lonas para forrar tanques e viveiros. A diversidade de produtos deu colorido especial a 14a Fenacam.

A ABCC disponibiliza na sua página na Internet as apresentações feitas durante a Fenacam 2017. No menu lateral da página www.abccam.com.br, clicar em “palestras”.

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