XX CONBEP | Florianópolis recebeu em outubro o principal encontro da Engenharia de Pesca

O XX Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca (CONBEP) foi realizado no período de 08 a 11 de outubro de 2017, no Centro de Eventos da Associação Catarinense de Medicina, em Florianópolis, SC. O tema escolhido – Engenharia: Tecnologia e Inovação para Pesca e Aquicultura – sugere a urgente valorização do conhecimento e o domínio das tecnologias como instrumento para alavancar a produção de pescado no país, tanto pela aquicultura, como pela pesca. Paralelamente ao evento, também foi realizado o II Seminário Sobre Assistência Técnica e Extensão Pesqueira, o Encontro de Estudantes de Engenharia de Pesca e o Encontro Nacional dos Diretores e Coordenadores dos Cursos de Engenharia de Pesca. O XX CONBEP foi uma realização da Federação Nacional dos Engenheiros de Pesca do Brasil (FAEP-BR), Associação Brasileira de Engenharia de Pesca (ABEP), Associações Estaduais dos Engenheiros de Pesca (AEP’s), com a colaboração da Associação Brasileira de Engenheiros de Aquicultura (Abeaqui). O evento reuniu cerca de 800 congressistas, sendo 500 deles estudantes de graduação e pós-graduação vindos de universidades espalhadas por todo o Brasil, a saber: Pará (UFRA, UFPA, UFOPA e IF/PA Campus Castanhal);  Amapá (UEAP); Amazonas (UFAM e IF/AM); Rondônia (UNIR); Maranhão (UEMA e UFMA); Piauí (UFP); Ceará (UFC); Rio Grande do Norte (UFERSA); Pernambuco (UFRPE e UAST); Alagoas (UFAL); Sergipe (UFSE); Bahia (UNEB de Paulo Afonso e Xique-Xique, e UFRB); Espírito Santo (IFES Piuma); São Paulo (UNESP Campus Registro); Paraná (UNIOESTE e IF/PR); Santa Catarina (UDESC Campus Laguna e UFSC); Mato Grosso do Sul (IF/MS Campus Coxim). Essa expressiva representação da academia resultou na apresentação de 532 trabalhos, expostos na forma de pôster.

José William Bezerra e Silva recebe homenagem das mãos de Elizeu Augusto de Brito e Leonardo Sales
José William Bezerra e Silva recebe homenagem das mãos de Elizeu Augusto de Brito e Leonardo Sales

Na cerimônia de abertura, Elizeu Augusto de Brito, presidente da FAEP-BR e também presidente do XX CONBEP, fez agradecimento às diversas instituições e parceiros que tornaram possível a realização do evento, e em especial ao presidente em exercício da AEP Sul, Javier Macchiavello, pelo apoio e dedicação para que o CONBEP tenha se realizado com sucesso. A cerimonia foi marcada pela homenagem que a FAEP fez a três profissionais que contribuíram para o engrandecimento da Engenharia de Pesca no país, agraciados com a medalha do Mérito da Engenharia de Pesca. Foram eles o engenheiro agrônomo José William Bezerra e Silva, pela vida dedicada à pesquisa e à vida acadêmica, uma carreira iniciada em 1965 no DNOCS, posteriormente, em 1975, no Curso de Engenharia de Pesca da UFC, contribuindo para a formação de muitos profissionais; o engenheiro de pesca Fábio Perdigão, professor associado da UFC e ex-presidente da FAEP; e o engenheiro de pesca Augusto José Nogueira, também ex-presidente da FAEP.

Uma sessão especial tratou da cooperação potencial em pesca e aquicultura entre o Brasil e a Noruega. Estiveram presentes Nina Mikkelsen, da Artic University of Norway, que apresentou como é feita a pesquisa marinha e pesqueira na Noruega, e a gestão dos recursos pesqueiros com base no conhecimento e na avaliação dos estoques. Johan Willians, abordou o mesmo tema, mas sob o enfoque da sustentabilidade e da legislação norueguesa. Willians também apresentou a história da indústria aquícola norueguesa, dos primórdios até os dias atuais.

Presença da Noruega no XX CONBEP
Presença da Noruega no XX CONBEP

O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), Itamar de Paiva Rocha, foi o convidado para falar das “Implicações das Políticas Públicas (Aquícola e Ambiental) do Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação da Aquicultura no Brasil”. Iniciou falando sobre o enorme potencial do país para a prática da aquicultura lembrado os 7.500 km de linha de costa; os 4,5 milhões de km2 de Zona Econômica Exclusiva (ZEE); os mais de 9 milhões de hectares de águas doce represadas; mais de 1.000.000 de hectares de áreas propícias para a carcinicultura; e também sobre o fato de termos uma das maiores produções de grãos do planeta. São recursos não explorados que obrigaram o país a desembolsar, só no ano passado, US$ 1,156 bilhão para a aquisição de pescado no exterior, fato que gerou um deficit de US$ 895,2 milhões na balança comercial brasileira. Itamar mostrou que, apesar das dificuldades impostas ao setor aquícola, como falta de licenciamento ambiental, crédito, etc., o setor cresceu 110,24% entre 2003 e 2015, enquanto a pesca, no mesmo período, caiu 1,71%. Analisou também a evolução da produção mundial do camarão cultivado entre 1975 a 2015, mostrando que houve um incremento médio de 365,76% por década. Em contraste, no Brasil, a produção de camarão de 2002 se compara em volume com a de 2016, ao redor de 60 mil toneladas, sendo que, em 2002, tínhamos 11 mil hectares de viveiros, contra os 25 mil hectares atuais. Esse cenário, segundo Itamar, se deve a falta de comprometimento governamental, como existe com outros setores que também produzem proteína animal. O Brasil participa com 30,87% (14,2 bilhões de dólares) do mercado internacional de carnes. Já no que se refere ao pescado, esse número cai para 0,17% (206,9 milhões de dólares), uma participação pífia diante do enorme potencial inexplorado que temos. E sobre os números baixos da carcinicultura, Itamar mostrou inúmeros exemplos de empreendimentos que atualmente, mesmo diante dos problemas decorrentes da Mancha Branca, estão obtendo produtividades excepcionais, apontando os novos rumos que a atividade está tomando. Mas para isso, disse Itamar, é preciso uma política de crédito que estimule o setor a investir nas mudanças necessárias para produzir com a presença de vírus e bactérias. Itamar também deu detalhes do imbróglio que envolve a autorização de importação de camarão do Equador, e explicou as razões que levaram a ABCC a rechaçar com veemência a medida.

Itamar de Paiva Rocha
Itamar de Paiva Rocha

Enox de Paiva Maia foi convidado para falar sobre “Tecnologia e inovação em sistemas de produção de camarões como alternativa de combate a mancha branca”. Enox fez um histórico da dispersão do vírus no mundo e em especial no Brasil. Aqui os prejuízos, nos últimos 10 anos, podem ter sido superiores a US$ 1 milhão de dólares, levando em consideração que aproximadamente 10 mil toneladas anuais deixaram de ser produzidas. Falou também dos sinais clínicos que ajudam a identificar a presença do vírus, e da sua capacidade de afetar animais em todas as suas fases de vida, criados em todo tipo de ambiente. “Entretanto, o que tem sido visto na prática é que em águas com um balanço iônico adequado, as sobrevivências são significativamente maiores”, disse Enox. Citou também a importância da introdução da tilápia no mesmo sistema de cultivo do camarão, podendo estar juntos ou em ambiente separado, utilizando a mesma água. Explicou que as lisoenzimas presentes no muco da tilápia atuam de forma bactericida e virucida e, além disso, a tilápia também contribui para evitar a transmissão horizontal da enfermidade ao consumir os restos de muda e os camarões mortos ou enfermos. Depois de falar da necessidade de manter a estabilidade dos parâmetros físicos e químicos, e a baixa quantidade de matéria orgânica nos viveiros, Enox falou das estratégias de convivência e combate da enfermidade, ocasião em que falou da produção intensiva de juvenis em estufa seguida da engorda em viveiros abertos, explorando a capacidade que o camarão tem de manifestar o seu crescimento compensatório. Depois de muitas lições de manejo para quem está procurando meios para produzir mais, em meio a mancha branca, Enox deixou o que pode ter sido a sua mais importante mensagem “ninguém sai do marasmo sem investimento”.

Foram muitas as boas palestras do XX CONBEP. Marcelo Gurgel Borba, da Phileo, fez uma apresentação bastante didática, quando abordou o tema “Biotecnologia a serviço da aquicultura: probióticos, prebióticos e alimentos funcionais no contexto da intensificação sustentável”. Depois de abordar as razões óbvias pelas quais é preciso produzir cada vez mais alimentos, principalmente pescado, Marcelo Borba falou dos desafios de produzir tendo pela frente problemas de sanidade, escassez de farinha e óleo de peixe, uso indiscriminado e resistência a antibiótico. Um dado curioso apresentado por Marcelo foi o resultado de uma pesquisa feita pela Global Aquaculture Alliance (GAA) a respeito dos principais fatores limitantes para a aquicultura. Enquanto no Brasil essa resposta certamente seria a falta de licenciamento ambiental, políticas públicas e crédito, o GAA ouviu dos entrevistados de vários países que a “sanidade e manejo de doenças” é o principal fator limitante (53%) seguido das questões ambientais e sociais (21%). São dados que mostram o impacto da sanidade e das doenças. No entanto, na verdade, aqui como lá, as doenças estão cada vez mais no foco das preocupações. Por conta disso, Marcelo Borba falou do biotecnologia aplicada à aquicultura, com foco na sanidade e na imunidade, e das soluções para saúde por meio da nutrição enriquecida com leveduras probióticas, com benefícios para os animais, estimulando as defesas naturais e regulando os processos inflamatórios, e ao meio ambiente. Marcelo finalizou sua palestra dando uma aula sobre as propriedades benéficas do elemento selênio, certamente fazendo a plateia sair dali com vontade de aprofundar mais neste tema.

Quem esteve no XX CONBEP atrás de mais conhecimentos, não teve dificuldades para encontrar boas fontes. Foram muitas as boas palestras, somadas aos 532 trabalhos expostos, realizados de pesquisa universitária feita por uma geração muito bem disposta que, se tiver o devido apoio necessário, terá muito a contribuir com a aquicultura. E quem, por alguma razão perdeu essa oportunidade, daqui a dois anos teremos o XXI CONBEP, que vai acontecer em Manaus. A cidade foi a escolhida em disputa acirrada com Fortaleza. Parabéns a nós todos que estivemos juntos em Florianópolis, e até Manaus em 2019.